Bons hábitos de adolescente

Quer coisa mais complicada do que ensinar aos nossos filhos adolescentes que criar bons hábitos só vai fazer bem para eles? Mas como pais determinados, é nosso papel ajudá-los a ter um norte, uma direção para poderem lidar com os desafios de ser adolescentes que eles enfrentam todos os dias. Mantenha hábitos saudáveis. Você pode até não dar a devida importância a isso, mas manter a forma e bons hábitos fazem uma grande diferença no seu estilo de vida. Coma alimentos saudáveis e evite frituras, doces e gorduras, dando preferência às frutas e legumes. Faça exercícios físicos durante 30 a 60 minutos diariamente. Bons hábitos: como ser um adolescente saudável 22 de setembro de 2018 by Primage Agência in Antecipe o Inevitável , Blog, Artigos e Vídeos , Neuro Produtividade , Qualidade de vida Hábitos destrutivos podem resultar em aprendizados ou fazer com que você se afunde ainda mais em comportamentos nocivos. OBJETIVO: Verificar a percepçao sobre hábitos e alimentaçao de adolescentes. MÉTODOS: Estudo descritivo e transversal realizado em um colégio estadual em Guarapuava, Paraná. Para investigaçao da percepçao sobre hábitos e alimentaçao utilizou-se o questionário de percepçao de hábitos saudáveis e o questionário 'Você possui uma alimentaçao saudável?' direcionado a jovens entre ... OBJETIVO: Disponibilizar de forma sintética, informaçoes sobre o conhecimento produzido a respeito dos hábitos alimentares dos adolescentes, para subsidiar a atuaçao de profissionais de saúde e educaçao, além de outros interessados junto deste neste grupo. FONTES DE DADOS: Trata-se de uma revisao sistemática de literatura, de caráter exploratório, realizada através da Biblioteca ... Fichas de hábitos para niños de primaria sobre tareas de casa, hábitos saludables y hábitos de convivencia.¡Entra! Personal Hygiene Includes cut and paste worksheets and posters.Includes the following:- 6 pages Personal Hygiene mini book (cut and paste) (boy and girl version)- 1 pages Sorting clean & Dirty (cut and pas... Primário para estabelecer bons hábitos de sono é uma percepção de que o sono é uma função necessária e normal. Contudo, assim como outras funções normais e necessário (por exemplo, alimentação, treinamento do toalete, etc), uma batalha podem se desenvolver entre os pais e seus filhos nesta área. adolescência) que os bons hábitos de higiene sejam colocados de lado, assumindo menor importância nesse contexto de descobertas, urgências e intensidades. A essa altura, não só ... • O acompanhamento de rotina da saúde bucal do adolescente pelo dentista é ... 10 hábitos que devemos inculcar na criança antes que se torne adolescente 1. Dedicar um tempo a cada dia para conversar: os adolescentes podem se fechar em si mesmos e não gostam de falar muito. Para preparar esse caminho e evitar esse isolamento a gente pode adquirir o hábito de falar um pouquinho com eles todos os dias. 2. adolescência é o período em que o corpo cresce e se desenvolve mais rápido. No entanto, a taxa de crescimento é diferente em cada um adolescente que depende de muitos factores, incluindo hábitos alimentares. Ajudar os adolescentes conhecer a sua altura potencial é um dos benefícios de hábitos alimentares saudáveis. A alimentação ...

Filmes de/para/com/sobre mulheres

2020.09.06 05:08 Isabelamachiavelli Filmes de/para/com/sobre mulheres

Há alguns meses eu ouvi uma entrevista da Geena Davis, acho que foi no pod do Marc Maron, em que ela comentava do hype em torno de Thelma & Louise, na época do lançamento. Porque foi um puta sucesso de vendas, APESAR de ser um filme sobre mulheres, protagonizado por mulheres... Ela disse que o sentimento geral era de que o filme tinha aberto a caixa de pandora dos filmes femininos, que marcava o fim da hegemonia dos protagonistas masculinos e tal. E que foi um balde de água fria constatar, nos anos seguintes e até agora, que isso nunca chegou a acontecer de verdade.
É claro que tivemos bons filmes de/sobre/para/com mulheres de lá pra cá (e obviamente antes de T&L), mas raríssimos grandes sucessos de bilheteria.
Enfim. Queria compartilhar a dica de alguns excelentes filmes de/sobre/para/com mulheres que assisti esse ano. E comentar que fazia tempo que não via tantos, e tão bons em tão pouco tempo.
The Hunt Esse é um dos meus preferidos deste ano. Parte da polarização política nos EUA: uns nortistas progressistas decidem fazer justiça com as próprias mãos, contra uns sulistas conservadores, negacionistas do clima, essas coisas. Existe um vácuo entre os dois extremos, nenhuma empatia, nenhum diálogo entre eles. Daí muita violência. As protagonistas são a Hillary Swank e aquela menina de Glow, as duas estão ótimas.
Honeyland Esse filme é do ano passado, na verdade. É lindo de morrer. Sobre uma mulher que cultiva abelhas, no interior da Macedônia do Norte, ela mora sozinha com a mãe enferma e idosa, meio que no meio do nada. Uma família de ciganos se muda para o terreno ao lado, e isso agita a rotina delas. É um documentário sobre comunidade, sustentabilidade, sobre o que é ser humano no final das contas. É a coisa mais linda do mundo. Se tiver oportunidade, assista pelo menos este, pode ignorar os outros dessa lista.
Never Rarely Sometimes Always Sobre uma adolescente do interior dos EUA, que precisa fazer um aborto, e vai fazer em uma clínica de NY. Vai ela e uma amiga, numa viagem de ônibus. O filme acompanha a viagem delas, as duas matando o tempo na rodoviária, essas coisas. Tem esse nome porque o questionário padrão da clínica de aborto pergunta pra paciente se ela já passou por tal ou tal situação nunca, raramente, às vezes ou sempre.
Driveways Sobre uma mulher que dirige até a cidade da irmã recém falecida, com o filho pequeno, para colocar a casa da irmã à venda. Quando chega lá, descobre que a irmã era uma acumuladora (hoarder). Elas não eram próximas, em vida, então fica aquele vácuo, de choque e tristeza. O filme não é muito mais do que isso, mas é sensível e delicado pra caramba. Os atores são todos ótimos.
Swallow Esse é difícil. Sobre uma jovem recém casada com um “excelente partido”, a princípio muito empenhada em se adaptar ao papel de esposa. Mas o tédio logo aparece com os dois pés na porta, e a mulher acaba aderindo a uns hábitos bastante extremos - conforme sugere o título. Vou parar por aqui para te poupar de spoilers.
submitted by Isabelamachiavelli to ClubeDaLuluzinha [link] [comments]


2020.07.06 00:45 dukaymon Ou os dois são loucos ou nenhum é.

Dia 1: Mário pega no carro e foge, saindo do concelho.
Dia 2 a dia 10: após abandonar o carro num parque de estacionamento a 230 km de casa, Mário esconde-se num pinhal e aí fica até acabaram as poucas latas de comida que trazia na mochila.
Dia 11 a dia 33: alimentado-se de frutas e vegetais que vai roubando de campos agrícolas e sem nunca ficar no mesmo sítio mais do que um dia, Mário encontra-se já a 300 km de casa, perto da fronteira.
Dia 33 a dia 77: sem se atrever a aproximar-se da civilização, por medo que o reconheçam (e não só), no meio do mato Mário encontra refúgio num casebre abandonado, envolto em silvas e arbustos, que funcionam como camuflagem, impedindo que mesmo o transeunte mais atento pudesse vislumbrar o edifício aí escondido. Na praia deserta que fica a 500 metros do local, Mário obtém o alimento que precisa e bebe a água da chuva que se acumula num pequeno tanque decrépito atrás do casebre.
Dia 78: Mário tenta pôr fim a tudo.

"Desculpem-me o mal que vos causei", lia-se na carta, "mas quero que saibam que, tal como rio rebenta o dique e inunda os campos em seu redor, se vocês sofrem por minha culpa, é porque não consegui conter em mim tanto sofrimento."
Dobrou a folha ao meio e deixou-a sobre um banco. Uma lágrima tinha esborratado o texto, deixando uma das palavras totalmente ilegível e, de forma parcial, a palavra que lhe antecedia e a palavra seguinte, mas ele nem reparou. Também não interessava, provavelmente ninguém iria descobrir aquela carta.
Levantou-se, saiu do casebre e caminhou nervosamente até à arriba de onde decidira que haveria de ser conduzido pela gravidade até ao abismo álgido e salgado que o tinha vindo a seduzir sempre um pouco mais de cada vez que o contemplara.
Era um dia ventoso e borralhento, mais ventoso ainda à beira mar, no cimo da falésia. Lá em baixo o mar castigava as rochas impassíveis que outrora haviam estado cobertas por um amplo lençol de areia.
Mário olha para baixo e murmura sofridamente:
-Como é possível que isto já tenha sido uma praia, e eu tenha sido tão feliz nela!
E não contém as lágrimas quando à mente lhe vêm as imagens dos longos e soalheiros dias de verão passados naquele lugar com os amigos, na adolescência.
Vinte anos separavam essas memórias do presente, vinte anos que, a bem dizer, pareciam cem ou mesmo vinte anos vividos por uma pessoa diferente, de tão antipodal era o seu estado de alma na altura em que decide suicidar-se, face à alegria, a energia e o fulgor do seu espírito na juventude.
Mário tentava sempre, quando ainda fazia um esforço para não desistir de viver, impedir-se de recordar esses bons momentos do passado, por saber que lhe agravavam a dor do presente. "O mau não parece tão mau a quem nunca conheceu o bom. Tomara que nunca tivesse experimentado a felicidade!", pensava ele.
Mas agora que está prestes a acabar tudo, que mal advinha de deleitar-se uma última vez com o sol e o calor desses Verões longínquos? A dor terminaria em breve.
- Seja esta a minha última refeição de condenado, um festim para as sensações! - disse ele.
A sua mente é então invadida por todas essas boas recordações que tanto procurara reprimir: as gargalhadas de fazer doer a barriga, os planos e objectivos idílicos para o futuro, a descoberta do prazer da sexualidade, as fogueiras acendidas pouco antes do Sol mergulhar no mar, com o intuito de obrigarem a praia a dar palco à sua puberdade até durante a noite.
Mário trauteia uma música da adolescência, de um desses Verões insuportavelmente felizes, e conforta-se com acreditar que dentro dos vãos e grutas daquela defunta praia ainda é possível ouvir o eco da sua melodia.
No alto do precipício o vento fustiga-o, e ele, de olhos fechados, imagina-o como sendo os seus amigos a saltarem para cima dele em jeito de brincadeira.
Esteve assim largos minutos, a colher quanta felicidade podia colher de um campo de alegrias já ceifado há muito. Até que a noção do presente retorna, para converter essa alegria em suplício: a realidade desesperante que põe fim à miragem de um oásis.
A chuva começava a cair tímida e lentamente, mas era perceptível que se estava a tornar ligeiramente mais forte a cada minuto que passava. Mas o vento, pelo contrário, seguia o sentido oposto ao crescendo da chuva.
-Ah, sim, o último banho do meu último dia de praia - diz Mário sarcasticamente, no seu habitual exercício de auto-comiseração, levantando a cabeça para encarar a chuva.
- Basta! - resmungou ele, cheio de repulsa de si mesmo, por não conseguir deixar de tratar com sarcasmo nem mesmo aquele que era o momento mais sério da sua vida.
Dito isto, baixa a cabeça, fita o abismo, vendo o mar que parecia aumentar de fúria, ofendido com a indiferença dos rochedos, e, sem ponderar um segundo, por medo que a coragem lhe viesse a faltar, dá aquele que pretende que seja o último mergulho da sua vida.
Mantém os olhos fechados e sente nos ouvidos o assobio do ar, que sobrepõe-se ao som da ira do oceano. E assim vai descendo, até que, de súbito, vê as memórias da sua vida, que naquele derradeiro momento parecem-lhe mais vívidas do que alguma vez pareceram, darem lugar a memórias estranhas e alheias a tudo o que vivera, e mas mais bizarro ainda: vê-as, não da sua perspectiva, mas da perspectiva de outra pessoa, que ele não fazia ideia de quem era.
Assustado, abre os olhos de repente e vê o mar a uns quantos metros de distância. Depois disso não se lembra de mais nada.

Quando acordou, Mário deparou-se com uma enfermeira que, empunhando uma seringa, tentava encontrar uma veia no seu braço. Ao vê-lo acordar, a enfermeira apressa-se a chamar um médico.
- O que é que aconteceu? - pergunta Mário, desorientado, ao médico que lhe auscultava o peito.
-Não se lembra do que aconteceu? - pergunta o médico. - O senhor atirou-se de uma falésia. Por sorte, ou mesmo por milagre, caiu numa zona em que a água tinha profundidade suficiente para que não tivesse morte imediata nas rochas. O hospital irá contactar a sua mulher e o o seu filho para informá-los que o senhor já se encontra consciente.
-Desculpe!? Mulher e filho? Eu sou solteiro e vivo com os meus pais! Enganou-se no paciente.
O médico, surpreendido, observa a sua ficha clínica e pergunta-lhe:
- Você não se chama Mário Costa Figueiredo?
-Sim - respondeu Mário.
-Então não há nenhum engano!
-Não, desculpe, há de certeza um equívoco... - retorna Mário, irritado e, ao tentar levantar os braços em protesto, repara que um deles estava algemado à cama.
- Ah, sim já me lembro, apanharam-me finalmente! Mas eu não tenho família nenhuma! Nem sou responsável pelo crime que me atribuem!
O médico calou-se, na dúvida entre estar perante um legítimo caso de amnésia ou um criminoso a mentir para tentar passar a ideia de que estava inocente.
Disse: "eu volto já" e afastou-se.
Os dois polícias que estavam de vigia à porta da sala onde Mário estava internado entraram assim que o médico avisou-os que ele tinha acordado e, a alguma distância, fitaram-no com cara de poucos amigos e trocaram entre si palavras que Mário não conseguia ouvir.
Provavelmente insultos, pensou Mário.
E pela razão certa, mas não contra a pessoa certa. Mário era suspeito de matar uma mulher grávida. O crime fora gravado e a cara dele tinha aparecido na televisão, mas não era ele.
Porém, o facto de se ter posto em fuga não fizera nenhum favor à sua reputação de auto-proclamado inocente, embora se ele próprio se tinha visto em vídeo a cometer aquele crime hediondo, seria impossível parecer mais culpado mesmo que tivesse ficado placidamente sentado no sofá à espera que a polícia arrombasse a porta de sua casa para o prender.
Setenta e oito dias em fuga andou Mário, até ser encontrado inconsciente na praia, após a tentativa falhada de suicido.
Mas porque fugiu Mário? E porque se tentou matar? As respostas, que parecem óbvias - não ser injustamente condenado por homicídio e estar cansado de viver como um pária fugitivo - não satisfazem totalmente as perguntas. Se esses foram factores a ter em conta, havia contudo algo de mais profundo, mais inquietante e mais assustador - ele fê-lo porque, no seu íntimo, sentia-se de alguma maneira culpado pelo crime que não cometeu.
Um Mário completamente seguro da sua inocência talvez não fugisse se o acusassem de um crime cometido por outrem. E decerto que jamais aceitaria carregar a culpa alheia por um crime, mesmo que todas as testemunhas jurassem pelos parentes defuntos que o tinham visto a disparar a arma. Nem mesmo que ele se tivesse visto a matar a vítima, como de facto viu. Nem mesmo que a sua vida dependesse disso. Mário estava inocente e sabia-o com toda a certeza, mas sabia também, com equivalente grau de certeza, que era (um pouco) culpado.

Mas os problemas de Mário não começaram com o homicídio.
Um estranho acontecimento ocorrido vinte anos antes, fora o que dera início à inexorável descida de Mário ao abismo.
Mário sempre jurou que pouco tempo antes do acidente que o tinha deixado desfigurado, tivera uma premonição. Um sentimento repugnante, um misto de desespero e medo avassalador, acompanhado por um arrepio na espinha, que sentira ao ver um relâmpago cair no sítio onde meses mais tarde seria atropelado por um carro.
Estropiado e desfigurado, não foi mais capaz de arranjar emprego e muito menos manter uma vida amorosa com uma mulher. Tinha passado os últimos vinte anos da sua vida a viver em casa dos pais, dependente destes, sem quase nunca sair à rua. Um adulto que nunca experimentara ser adulto, alguém que ia envelhecendo mas cuja vida parara para sempre na adolescência.
Sem coragem para matar-se, a única coisa que desejava, dia a pós dia, era a morte.


As provas não deixavam margem para dúvida: as impressões digitais recolhidas no local do crime eram dele, bem como ADN. Se ele não era culpado deste crime, as prisões estavam cheias de inocentes.
E no entanto não era culpado, asseverava ele com toda a convicção e honestidade possíveis de se encontrar num inocente injustamente acusado.
Mário foi condenado à pena máxima. A "sua" mulher esteve presente no julgamento, chorosa, desolada, horrorizada. E na cara de Mário era patente a incredulidade de um viajante do tempo que encontra no futuro um mundo tecnologicamente impossível de conceber na sua era. Estarei louco?, pensou ele. E foi nisso que preferiu acreditar, confrontado com a sua "nova" realidade. Mas não cometi aquele crime, posso estar louco mas não sou assassino!
A mulher visitou-o relutantemente apenas uma vez na prisão. Quando, durante essa visita, ele lhe disse que nunca a tinha visto na vida e que não tinha filho algum, nem com ela nem com ninguém, ela sentiu alívio por ter sido ele a pôr fim a tudo. Se fosse eu a rejeitá-lo, ele ainda me mandava matar!, pensou ela à saída da prisão.Mário depressa se aclimatou à vida de recluso, que ele não considerava pior que a vida miserável que tinha levado durante os últimos vinte anos, enclausurado em casa dos pais. Ao fim do primeiro ano, Mário decide escrever um livro, uma espécie de biografia "barra" apologia da sua inocência.
Falou da premonição, do acidente meses mais tarde, da visão que teve quando se tentou matar; tentou demonstrar o seu álibi para a momento do crime e falou das suas famílias: a verdadeira, os pais, dos quais nunca mais teve notícia e nunca mais não foi capaz de encontrar, como se nunca tivessem existido (a casa onde viviam também não existia), e da nova família e nova vida que o universo lhe atribui depois de se ter atirado da falésia.

O manuscrito chamou a atenção do psiquiatra que acompanhava Mário. O psiquiatra tinha diagnosticado Mário com amnésia retrógrada e classificara as memórias anteriores ao acidente de confabulações.
O psiquiatra tinha um amigo, Alexandre, um sujeito lunático mas interessante, que tinha interesse no ocultismo, em particular na parapsicologia. O psiquiatra, Carlos de seu nome, que gostava de ficar a ouvir o seu amigo e antigo colega de faculdade a debitar disparates fantasiosos mas originais quando se encontravam aos domingos à tarde, na casa deste último, sempre com um leve sorriso de troça na cara, sem, contudo, ser desrespeitoso e sem que Alexandre levasse a mal, decidiu mostrar-lhe uma cópia do manuscrito, com a autorização de Mário.
Numa terça-feira de manhã, no caminho para o trabalho, Carlos parou na casa do seu amigo e entregou-lhe o manuscrito, na expectativa de ouvir Alexandre discorrer sobre o assunto no domingo seguinte.
- Olha o que um recluso lá da prisão escreveu. Diverte-te.
E saiu um pouco apressado, pois já ia atrasado.
Domingo chegou, e, para quebrar o hábito, era Alexandre que batia à porta de Carlos logo após o almoço e não o inverso, como sempre sucedera. Estava nervoso e efusivo, como um adolescente prestes a perder a virgindade.
- Tenho de falar com esse tipo. A que horas podem os prisioneiros receber visitas? - perguntou Alexandre.
Carlos tentou demovê-lo, pois não lhe agradava a ideia que um doente mental como Mário, e ainda por cima um paciente seu, fosse influenciado por um excêntrico como Alexandre, por mais bem-intencionado que fosse. Discutiram e foram-se zangando gradualmente mais com o decorrer da discussão. No fim, para não arruinar aquela amizade que ambos prezavam, Carlos concedeu que Alexandre visitasse Mário, até porque não havia maneira legal de o impedir.

O dia em que Mário e Alexandre se conheceram chegou, e, assim que Mário o viu, pensou tratar-se de algum daqueles "novos" parentes ou amigos da sua realidade pós tentativa de suicídio.
- Ah, sim, você é o tal amigo do psiquiatra - disse Mário, aliviado por não ser nada daquilo que esperara.
Alexandre disse que lera o livro e Mário interrompeu-o:
-Deve pensar que eu sou maluco ou mentiroso, não é? - acrescentou ele.
Houve uma pausa e Alexandre, num tom sério, respondeu:
- Não, não acho...
Os olhos de Mário acenderam-se e, após alguns uns segundos, perguntou:
Quer dizer que você... acredita?
Uma pausa, mais longa que a anterior, separou a pergunta de Mário da resposta de Alexandre. Alexandre aproximou a cara do vidro e, como que reconfortando um amigo em sofrimento, diz com voz baixa mas firme:
- Acredito.
Mário pergunta imediatamente, incrédulo e extático:
-Acredita que eu sou inocente ou no resto? Ou em tudo?
Alexandre diz:
-Acredito que teve de facto aquilo a que chama de "premonição". Acredito que viu o que viu quando se atirou para o mar e, embora não descarte a hipótese de amnésia, creio que é possível que esteja a ser sincero quando diz que a sua família não é de facto a sua família. Quanto ao crime, devo ser a única pessoa no mundo que não está convicto da sua culpabilidade.
Mário não sabia o que achar. A realidade para ele não fazia sentido. Se ele próprio vira-se a cometer o crime e sentia-se um pouco culpado por isso, embora soubesse que não o cometera, e se havia provas irrefutáveis que apontavam para si, como é que era possível que alguém duvidasse disso, ainda para mais um total desconhecido como Alexandre? Uma realidade em que Mário era casado e tinha um filho, era uma realidade em que também podia existir alguém como Alexandre. Mas provavelmente estava louco, como preferia acreditar.
Quase a chorar, Mário pergunta:
-O que o leva acreditar em mim?
Alexandre diz:
-Conhece o conceito de doppelganger?
- Sósias? Sim - respondeu Mário.
-Certo - retorquiu Alexandre-, mas não me refiro somente a pessoas apenas com similaridades físicas com outras pessoas sem parentesco. Falo de uma relação entre dois ou mais indivíduos que vai além do que é meramente o aspecto físico, a uma relação de transcendência psicológica, uma ligação talvez metafísica entre mentes.
-Desculpe, mas não acredito nessas coisas - retrucou Mário. - E não vejo o que tem isso a ver com o meu caso. Está a querer dizer que foi um sósia meu que cometeu o crime?
-Não acredita, mas no entanto jura que a sua família foi trocada, que não cometeu o crime apesar das evidências e que viu a vida de outra pessoa à frente quando tentou matar-se. Se não acredita, então só podemos concluir que é louco, certo? E para além disso, é você que afirma ter tido uma "premonição". Ora, não acredita em si próprio? Loucura por certo...

Mário, sentiu-se tocado. Nunca revelara a ninguém que achava que talvez estivesse louco. Mas que outra explicação haveria?
-Não me diga que o meu sósia também tem o meu ADN e as minhas impressões digitais? - disse Mário, um pouco desdenhoso. - E quando eu falei de premonição, se você leu mesmo livro, decerto se lembrará que não invoquei explicações paranormais. Eu senti que algo de mau ia acontecer, e aconteceu. Foi apenas isso, um sentimento. Se eu "adivinhei" o futuro ou se foi um sinal "dos Céus" abstenho-me de especular.
Pense nisto - disse Alexandre-, tal como duas pessoas diferentes, sem qualquer contacto entre si, podem acertar nos números da lotaria, também é possível, mas extremamente improvável, que duas pessoas tenham o mesmo ADN. A probabilidade é tão baixa que no mundo você não encontrará ninguém geneticamente igual a si, mas se a população mundial fosse suficientemente numerosa, seria possível encontrar; e quanto mais numerosa fosse, mais probabilidade haveria. Seriam seus "gémeos" idênticos, apesar de não serem filhos dos mesmos pais... - Mário ia dizer algo, mas Alexandre aumentou e apressou a voz de modo a impedido de exprimir-se. - Quanto à premonição, se você pressentiu algo de mau que iria acontecer meses depois, então é óbvio que temos de recorrer a explicações não usuais para isso, pois prever o futuro não é considerado possível pela ortodoxia científica. Dou-lhe o seguinte exemplo como forma de fazê-lo perceber melhor onde quero chegar:
"Há várias décadas, na Austrália, um homem, incapaz de adormecer, decide ir à varanda para apanhar ar. No momento em que vê a lua cheia sente uma repulsa macabra inexplicável, como nunca tinha sentido, um mal-estar físico como se tivesse ingerido algum veneno. Era perto da meia-noite. No dia seguinte, a polícia bate à sua porta e informa-o que a sua filha fora assassinada. O médico legista determinou que ela tinha sido morta por volta da meia-noite.
"Não havia maneira do pai saber que a filha estava a ser assassinada a dezenas de km de distância, no entanto esse acontecimento foi sentido por ele de algum modo, a não ser que acreditemos que se tratou de uma coincidência.
"Isto costuma acontecer também com gémeos idênticos, em que um deles é sensível ao que se passa com o outro."
-Continuo sem perceber o que tem isso a ver comigo - disse Mário.
-Da mesma forma que a mente consegue sentir a dor ou alegria de alguém que nos é biologicamente próximo, ou mesmo idêntico, você, como confessou no seu livro, talvez sente-se um pouco culpado pelo crime porque aquele poderia ser o seu irmão gémeo ou algum "clone" sem relação a si, como referi há pouco. Esta - um irmão gémeo - seria a explicação mais simples, e portanto mais plausível, para o sucedido. Mas como acreditar nisto se você próprio confessou o crime na sua carta de despedida? E se eu acreditasse nisto não estaria aqui.
Mário ficou atónito:
-Desculpe?
Alexandre, que não estava surpreendido com a surpresa de Mário, não que achasse que ele estava amnésico ou a fingir, diz:
-Sim, após acordar no hospital você revelou o seu esconderijo à polícia e lá encontraram a sua carta, na qual desculpava-se pelo sofrimento causado à sua mulher e filho e confessava o homicídio da sua amante grávida. .
-Não, lamento, isso não aconteceu. Eu escrevi uma carta, sim. Mas como tem você conhecimento disso? - pergunta Mário. Que um estranho tivesse conhecimento de uma carta que nem a polícia que investigou o crime e perseguiu Mário durante quase três meses conhecia, seria motivo de estupefacção e medo para qualquer pessoa, mas em Mário, que já passara e continuava a passar por coisas mais bizarras, isso não causou tanto espanto como deveria. Mário acrescenta:
-Mas não escrevi isso que diz. E para além disso, a polícia, que eu saiba, nunca encontrou a carta porque eu, com vergonha, nunca mencionei o esconderijo. Não queria que a minha carta de despedida fosse descoberta tendo eu sobrevivido, seria vergonhoso demais. Mas em nenhum parágrafo da carta admiti o crime, pois não o cometi. Apenas pedia desculpa aos meus pais pelo sofrimento que lhes causei, motivado pelo sofrimento que eu sentia.
-Lembre-se, eu acredito que esteja a ser sincero quando diz o que diz. E que essa sinceridade não advém das confabulações em que um amnésico acredita, mas correspondem aos factos.
"Eis o que eu acho: você não matou aquela mulher. Mas você também matou-a. E as suas duas famílias são ambas suas mas não ao mesmo tempo. E as memórias que viu na mente são suas e e não são suas, pois foram e não foram vividas por si.
"Aquela sua premonição, tida no momento de uma descarga de energia - o relâmpago - foi a recolecção, por parte da sua mente, da informação de um evento que tinha acontecido no futuro, mas um futuro doutro universo, futuro esse que, em relação à linha temporal do nosso universo, seria um acontecimento do passado. Doutro modo, você não poderia ter tido a premonição, pois a causa (o acidente) teve de anteceder o efeito (a premonição do acidente) para que aquele pudesse ser previsto. Como, de acordo com as leis da física, as causas nunca antecedem os efeitos, o acidente teve de ocorrer primeiro noutro universo para que o conhecimento dele neste universo pudesse anteceder o seu acontecimento neste universo. É esta, a meu ver, a explicação para o fenómeno vulgarmente denominado «premonição»: a falsa «previsão» do futuro que não é mais que a lembrança, neste universo, de um evento já ocorrido noutro universo e que irá também ocorrer neste. E falo da verdadeira premonição, não da ilusão de premonição que advém das naturais falhas e vieses cognitivos da mente humana."
-Agora você já está a abusar- disse Mário. - Ou você é mais louco do que eu ou está a fazer pouco de mim.
Alexandre esboçou um sorriso, mas logo ficou sério:
- Não, repare, o que eu lhe estou a tentar dizer é que acredito que cada um de nós tem pelo menos um outro "eu", e talvez uma infinidade de "eus", que existem simultaneamente connosco, mas não aqui. O que acontece, na minha opinião, é que, por razões que ainda não vislumbro, às vezes esse(s) diferente(s) universo(s), ou partes dele(s), como você, ou eu, ou uma cadeira, ou uma árvore, ou um simples átomo, cruza(m)-se com o nosso, da mesma maneira que duas linhas de pesca se emaranham ao cruzarem-se, ou como dois fios de electricidade, que correm paralelos de um poste ao outro, tocam-se quando há vento. E ao fazerem-no podem trocar matéria, energia e informação. As memórias que você viu, e que se calhar irá ver com mais frequência, ou nunca mais, são as memórias do seu outro "eu" de um universo paralelo, com o qual você trocou informação. A "nova" vida que todos dizem ser sua após a queda no mar, talvez não seja mais que a "sua" vida de um universo paralelo. Talvez você não seja deste universo, ou talvez sejamos nós, e quando digo nós refiro-me à totalidade do que existe neste universo, que estejamos a mais; se calhar este universo, ao emaranhar-se com outro, foi esvaziado do seu conteúdo original, excepto você, e preenchido com o conteúdo desse outro universo. E agora você, neste seu universo, paga pelo crime que o seu outro eu cometeu naquele nosso universo. E o seu outro eu deve andar por lá livre como um passarinho. Que bela forma de escapar à justiça, não acha?
"E às vezes, creio que acontece o seguinte: quando dois universos se «cruzam» apenas um deles recebe matéria ou energia do outro. É esta, a meu ver, a origem de alguns doppelgangers. Que podem ser de pessoas, animais, plantas ou coisas inanimadas.
"É natural que se sinta culpado do crime, foi você que o cometeu. Se um pai é capaz de sentir uma filha a ser assassinada e um gémeo a dor de outro gémeo, como não havia você de sentir o que você próprio fez?"
Mário abanou a cabeça como quem está farto de ouvir baboseiras e levantou-se da cadeira.
-A visita acabou - disse ele ao guarda. E foi reconduzido à sua cela.
Devo estar louco, de facto. E se calhar até cometi o crime e não me lembro. Se calhar estão todos certos. Mas aquele tipo também não devia andar à solta, pensou Mário. E talvez estivesse certo também.
submitted by dukaymon to escrita [link] [comments]


2020.04.22 04:32 ihattori nerd zé droguinha fodase k k k

OBS: fiz esse texto com o objetivo de recapitular esses últimos meses conturbados na qual minha vida mudou completamente e acabou ficando um texto gigante, então não espero que alguém leia (até eu to com preguiça de ler isso).

Desde os meus 12 anos fui um clássico adolescente fracassado. Ficava praticamente o dia inteiro no computador e só saia para comer ou fazer algo que era obrigado, na escola só falava com uns três amigos mesmo que tenha ficado na mesma turma desde o primeiro ano do fundamental e no Whatsapp não falava com praticamente ninguém. Porém antes eu não era assim, dava pra se dizer que eu era uma pessoa até que normal, mesmo que desde pequeno não tinha muitas habilidades sociais e sempre fui introvertido. Até que conversava com algumas pessoas na escola, saia para dar rolê pelo bairro, praticava esportes e essas coisas. Tudo começou a mudar quando meu tio morreu e isso desestabilizou toda a minha família, comecei a sofrer bullying na escola e coincidentemente conheci a pornografia.
Então minha rotina se tornou acordar praticamente na hora do almoço, ir para a escola esperando a hora de voltar para casa e quando chegava em casa ficava no computador jogando algo, vendo vídeos fúteis no youtube ou consumindo pornografia, que acabou se tornando um vício diário. Depois eu ia dormir umas duas horas da manhã e este ciclo se repetia sempre, raramente mudava. Isso foi até meus 15 anos, quando entrei pro ensino médio e comecei a estudar de manhã, então eu pelo menos acordava cedo e não ia dormir extremamente tarde. Porém os vícios somente mudaram de hora, pois eu chegava do colégio e ficava praticamente o resto do dia inteiro no computador. Na nova turma demorei praticamente dois meses para começar a socializar de fato, eu só ficava calado no meu mundinho esperando a hora de voltar para casa.
Minha relação com as mulheres também não era muito boa, eu tinha fucking 15 anos e ainda não tinha nem beijado. Não foi por falta de oportunidades, pois minha aparência até que é boa e eu não era um beta completo que não consegue nem falar com mulheres. Tinha perdido todas as oportunidades quando criança e quanto mais o tempo passava menos elas surgiam, até que chegou a um ponto que elas nem apareciam mais e eu tava tão imerso na minha zona de conforto que nem tinha vontade de criar as oportunidades e ir atrás de mulheres. Acho que não dava nem pra se dizer que eu era um beta, creio que cheguei abaixo desse nível pois eu nem chegava a tentar.
Até que aconteceu algo que mudou tudo. Uma colega minha tinha criado um grupo de umas pessoas que sentavam próximas na sala de aula e como eu falava um pouco com ela me colocou também. Nesse grupo ela também tinha colocado uma guria que tinha me chamado a atenção desde o inicio das aulas, pois ela tinha tanto uma aparência quanto um estilo diferenciados e ao mesmo minimalista, nada muito vulgar. Por esse grupo a galera falava mais sobre algumas coisas da aula mesmo, pois a maioria ainda tava se conhecendo. Eu até que interagia um pouco nesse grupo, pois tinha percebido que não interagia com praticamente ninguém da turma em mais ou menos 2 meses de aula. Até que um dia por causa de um trabalho que uma professora tinha dado entramos no assunto de pirâmide e eu sempre me interessei por tal assunto, e é aí que tudo começa.
A conversa foi rolando e chegou uma hora que só ficou eu e aquela moça que eu tinha me interessado conversando. E, namoral, fazia tempo que eu não tinha uma conversa tão boa, fluía muito bem tanto que começou no assunto de pirâmides e quando vê estávamos falando sobre brócolis (???). Mas o que chamou minha atenção foi que ela tinha umas ideias meio diferentes, curtia falar sobre coisas alternativas (tanto que a conversa começou com pirâmides e ETs) e isso também chamou a atenção dela, pois ela mesmo disse que se interessava muito sobre essas coisas e que nunca tinha ninguém para falar sobre. (exemplos de "coisas alternativas": ETs, filosofia, sociedades secretas, teorias, leis universais, espiritualidade, arte, geometria sagrada, etc.)
As ideias fechavam tão bem que em praticamente dois dias eu já tava apaixonado (modo beta ativado KKKK). Antes disso eu achava que já tinha me apaixonado, mas nenhum sentimento que eu já tinha tido por alguém chegava perto daquilo. Com isso, comecei a refletir sobre a minha vida e cada vez mais eu me ligava que eu era um lixo, não merecia ela e nem conseguiria a conquistar. Então comecei a usar a motivação que a paixão me proporcionava para meu auto-desenvolver.
Aí comecei a pesquisar no youtube diversos canais sobre desenvolvimento pessoal e ficava grande parte do tempo vendo eles, comecei a praticar no-fap (mesmo sem saber o que era, fui descobrir depois de começar a praticar) logo depois comecei a ler livros, me exercitar, cheguei até a tomar banho gelado e ficava muito menos tempo no computador. Também via muitas coisas sobre conquista e sedução, porque eu não tinha muita experiência com mulheres e queria usar de todas as ferramentas para conseguir ficar com ela.
Até ai tudo bem, estava me sentindo vivo depois de tanto tempo vivendo com um sentimento de vazio, estava com motivação para melhor como pessoa, tinha encontrado alguém que se interessava pelas mesmas coisas que eu, etc. Maas tudo têm dois polos e isso não é diferente. Como conversava com ela praticamente todo dia, acabei me viciando nela e isso virou meio que uma droga, pois quando eu tava falando com ela ficava num estado eufórico e estava extremamente motivado, porém quando via que ela demorava pra responder ficava num estado muito depressivo. Ela também diariamente ficava em call com um colega nosso (pior que ele era um zé droguinha k k) e isso me deixava muito fudido emocionalmente.
Com o tempo começamos a nos falar menos (normal, pois conversávamos todo dia) e descobri que ela gostava de um outro mlk de outra turma (zé droguinha repetente também KKK) e mesmo sabendo que ela já gostava dele antes de me conhecer isso me deixou mais mal ainda. Mesmo com tudo isso, continuava com essas variações de humor quando falava com ela e quando não falava, porém de um modo mais extremo, muitas vezes até pensando em suicídio. E era justamente isso que me impedia de criar intimidade com ela, era por isso que ela preferia os "zé droguinhas". Eles não estavam ligando pra ela, e para mim ela era única, eu sabia que não iria achar outra moça como ela tão facilmente. Isso me impedia de ser natural e de não tratar ela como a última pessoa do mundo, mesmo que eu tentasse isso é sútil e faz toda a diferença.
O tempo foi passando e eu estava perdido, sem saber o que fazer. Cheio de informação e sem saber como aplicar, e ai entra outro erro meu. Fiquei vendo diversos vídeos sobre conquista chegou um ponto que não sabia o que por na prática, se me declarava pra ela ou deixava rolar, se dava atenção para ela ou vivia minha vida normalmente pra mostrar para ela que ela não era prioridade arriscando perder contato com ela, etc. E eu acabei ficando nessa inércia, continuava falando direto com ela mas não conseguia evoluir na relação, pois sempre que tentava algo como iniciar um flerte ela meio que se esquivava. Assim foi até que um dia descobri que ela não estava mais apaixonada, e achei muito estranho pois nem sabia que ela estava. Fiquei feliz pois melhor para mim, porém o cenário mudou completamente quando descobri que na verdade ela estava apaixonada por mim.
Isso me deixou pior do que eu já tava, pois eu fiquei me sentindo um lixo por ter perdido a oportunidade. Tipo, não importava o que eu fizesse tinha grandes chances de dar certo porque ela tava fucking apaixonada por mim, porém eu não fiz simplesmente nada. Isso explica também o motivo dela se esquivar quando eu tentava algo, porém avaliei a situação e era muito óbvio o interesse dela em mim, só que eu estava com tanto medo de agir que ignorava os sinais. Mas mesmo assim em todo esse tempo nunca paramos de nos falar, somente tinha algumas pausas temporárias e agora tinha percebido que ela estava diferente, parecia não ligar tanto pra mim.
Não bastasse isso, nesse mesmo período descobri que iria me mudar no fim do ano. Isso conseguiu me deixar pior ainda, mas ao mesmo tempo feliz pois seria para Florianópolis. Aos poucos fui perdendo o sentimento por ela e consequente a motivação para manter meus hábitos. Voltei a ficar mais tempo no computador, a consumir pornografia (bem menos que antes), no fim o único hábito que consegui manter foi o da leitura. Pior que nesse tempo eu estava estudando a obra de Nietzsche e acabei me tornando niilista, nenhuma crença fazia sentido para mim, nem a vida. Para completar, estava tendo muitos atritos com minha família.
Então formou um combo: eu tinha perdido a oportunidade de ficar com ela, descobri que iria me mudar e perder o contato com todos meus poucos amigos e que iria possivelmente nunca mais ver ela, não via sentido na vida (mesmo com bastante conhecimento sobre religião, espiritualidade, etc.), e ainda estava com problemas em casa. Pelo menos como eu já tinha conseguido melhorar no quesito social por causa desse tempo em que busquei me aprimorar, pelo menos na escola eu ficava até que bem e socializava com geral.
Como eu sabia que iria me mudar, resolvi meter o fodase. Passei a não ligar pra opinião dos outros, falava com bastante gente e não estava me importando muito com desenvolvimento pessoal. Até que um dia eu estava chegando em casa e meu vizinho que era meu melhor amigo de infância me chamou pra casa dele. A gente não se fala muito pois eu tinha virado mais "nerd" e ele tinha se tornado mais "zé droguinha", mas nos dávamos bem até. Cheguei lá e tava ele e mais dois amigos, logo ele me ofereceu uma garrafa de Coca-Cola com um líquido estranho dentro e disse pra eu beber. Logo me liguei no que poderia ser, e como não estava lingando bebi tudo e ai eles me disseram que era MDMA dissolvido e que em alguns minutos o efeito iria começar. O máximo que eu já havia usado foi maconha em bong, mas isso era outro nível. Foi a melhor sensação que eu havia sentido na minha vida. Fritamos muito, os amigos dele que já eram meus conhecidos gostaram de mim e assim eu voltei a falar com esse meu amigo.
No outro dia fui pra escola sentindo um forte vazio existencial que é normal sentir depois de usar uma droga como essa, porém isso não era problema pois as 8 horas em que o efeito da droga geralmente dura valem a pena. Então, como voltei a falar com esse meu amigo conheci outros amigos dele e sem querer querendo eu estava me tornando um "zé droguinha". Não um zé droguinha no estilo favelado brasileiro, mas num estilo mais Lil Peep (que é um artista que eu ouvia pra krl na época e ainda escuto um pouco). Começou com eu indo na praça e fumando maconha e com o tempo foi piorando..
Antes disso tudo eu havia entrado numa "escola de autoconhecimento" na qual eu continuava indo mesmo depois de tudo isso ter acontecido eu ainda tinha um pouco de motivação para me auto-desenvolver. Então chegou a um ponto em que uma hora eu estava fumando em um bong e logo depois lendo um livro sobre desenvolvimento pessoal, uma hora eu estava meditando nesse curso de autoconhecimento e no outro dia estava bebendo e jogando sinuca em um bar. Eu estava completamente dividido.
Até que teve uma vez em que meu vizinho estava fazendo uma social com uns amigos e eu decidi ir ali, isso já era mais ou menos meia noite. Logo que cheguei já vi uma movimentação estranha e chegou um cara que eu não conhecia lá e tirou um pino de cocaína do bolso e foi fazendo as linhas. Todos começaram a cheirar e chegou na minha vez. Fiquei muito na dúvida, mas sempre que ficava na dúvida entre fazer algo ou não me lembrava dos anos em que perdi na frente de um computador e ia lá e inconsequentemente fazia (isso só não funcionava com a moça que eu estava apaixonado k k). Depois decidimos ir na praça e no caminho o meu amigo foi me falando da situação, disse que era a movimentação tava meio agitada pois era a terceira vez que tinha ido pegar pó e estavam sem dinheiro e o traficante disse pros caras que tinha ido pegar deixarem o relógio e o moletom com ele de garantia e que se eles não pagassem ele no outro dia ele iria matar eles. Nisso eles já estavam com uma dívida de uns 100 reais e todos estavam sem dinheiro, então decidi ajudar com os 20 reais que eu tinha sobrando e alguns deles iriam vender fones de ouvidos e carregador na estação de trem para conseguir juntar uma grana e pagar o plug.
Se você se pergunta o que os usuários ficam fazendo de madrugada drogados, é decepcionante. Ficavam falando sobre futebol, fazendo batalhas de rimas, falando sobre mina e essas coisas. Depois nós fomos dar uma volta pelo bairro, fumamos maconha e voltamos para casa e isso já era umas cinco horas da manhã. Cheguei, fui dormir e acordei as 06:30 para ir para o colégio, possivelmente ainda no efeito da maconha. As pessoas do colégio já tinham notado que eu estava diferente e algumas suspeitavam que eu estava usando drogas (de fato, eu estava), porém eu nunca tinha chegado a comprar droga, sempre usava se estava com alguém que tinha e não tinha criado nenhuma dependência. Algo que ajudou a acharem isso foi eu ter mandado uns áudios bêbado para aquele grupo em que conheci aquela moça e uma guria mandou no grupo da turma alguns desses áudios no grupo da turma (nunca mandem áudio bêbados, sério).
As pessoas da minha turma diziam me achar estranho pois no início do ano acreditavam que eu era um nerd que não falava com ninguém e agora eu conversava com todo mundo e que era um possível zé droga. E foi realmente isso que aconteceu, eu tinha parado de desperdiçar minha vida na frente de um computador e passei a desperdiçar queimando meu neurônios. Minha mãe sempre foi protetora e com razão suspeitava de mim, porém não achava que iria me envolver com essas coisas pois sempre fui tranquilo quanto a isso e também por que isso não é muito coisa de alguém que fica a maior parte do tempo no computador.
Um dia uns me chamaram para ir na praça e depois no bar jogar sinuca. Cheguei lá e eles estavam com um pino de pó, e como eu não tinha sentido bem os efeitos na primeira vez não liguei e usei de novo. Logo depois fomos para o bar e como eu estava com dinheiro decidimos comprar uma garrafa de vinho e jogar sinuca. Tomei dois copos e meio e lá estava eu, o nerd beta gamer cheirado e bêbado de vinho num bar kk. Foi uma sensação ainda melhor do que no MDMA, eu estava me sentindo um semideus, não ligava pra nada e falava coisas sem sentido. Porém, eu tinha que ir pra casa cedo e eu estava tão alterado que nem medo de chegar em casa naquele estado eu conseguia sentir, mas sabia que tinha que evitar ao máximo o contato (algo que eu já estava acostumado). Cheguei lá e vi que minha mãe já estava meio desconfiada então tentei evitar o contato mais ainda, depois fui pro computador e fiquei ouvindo música, as músicas pareciam 300% melhores enquanto eu estava naquele estado.
Fiquei um tempinho sem usar nada além de maconha as vezes e um dia fui na casa do meu amigo e notei que eles não estavam usando nada, mas tinha uma lata com um furo e já me liguei no que era, o famoso lança de baixo custo, vulgo loló/sucesso. Eu não tinha muito conhecimento sobre essa droga, só sabia que o efeito durava pouco e forte. Por isso, imaginei que fosse relativamente leve comparado a outras que já tinha experimentado. Experimentei e logo senti o famoso "tuin", meus pés e mãos começaram a formigar, meu batimento cardíaco aumentou e fiquei extremamente eufórico. Porém, depois de uns minutos o efeito passou e fiquei com uma certa dor no peito.
Vi que essa droga era muito mais forte do que eu pensava e decidi ir pesquisar sobre os efeitos colaterais dela e descobri que na verdade o que eu usei foi spray anti-respingo de solda, considerado um "crack dos inalantes" e que eu poderia até ter morrido se tivesse inalado mais. Então depois disso decidi não usar mais drogas (demorei kk), até por que eu iria me mudar em mais ou menos um mês.
E assim foi, com o tempo fui melhorando meu emocional e aprendendo a conviver com meus arrependimentos. Já faz uns 3 meses que estou morando em floripa e uns 7 em que me apaixonei por aquela moça, é bizarro pensar que tudo que aconteceu depois disso enquanto eu ainda morava no RS aconteceu em mais ou menos 4 meses. Estou tentando repor os hábitos e por alguns outros na minha rotina para meu desenvolvimento pessoal e pôr em prática o que aprendi depois de tantos livros lidos e tantos vídeos de auto-desenvolvimento assistidos. Por mais que tenha sido um período bem difícil, foi o período na qual mais aprendi e agora consigo equilibrar meu lado "nerd" e meu lado "zé droguinha", chegando a um equilíbrio. (OBS: perdi o bvl e a virgindade, finalmente).
Escrevi isso só para organizar toda essa série de acontecimento na minha cabeça, pois até hoje eu nem tinha entendido direito o que aconteceu, as coisas ficam muito vagas somente no plano mental. Se tu leu esse texto mau escrito até aqui tu é um guerreiro, pois nem eu to com vontade de ler tudo isso.
Algumas dicas que vou usar para mim mesmo, baseado no que extrai desse período da minha vida:
-Se quiser conquistar alguém, seja você mesmo e não torne a outra pessoa o centro da tua vida.
-A mentalidade de pensar "eu vou morrer mesmo" pra alguma decisão é boa, se usada conscientemente. Memento mori, carpe diem.
-Quanto maior o extremo de algo pior seus efeitos colaterais, e isso é uma lei. As drogas demonstram isso bem, pois quanto melhor o efeito e maior a acessibilidade da droga pior são seus efeitos colaterais. Ser um "nerd" é ruim mas tem seu lado bom, com ser "zé droguinha" não é diferente. A chave é o equilíbrio.
-São nas piores situações que mais evoluímos.
-Mais vale um livro compreendido e praticado do que 30 simplesmente lidos.
-Cuidado com as influência que recebe. Certamente se eu não ouvisse Lil Peep e não andasse com quem estava andando não teria sequer tocado numa droga KKK.
-Uma conversa aleatória com uma pessoa desconhecida pode mudar toda tua vida.
-Hábitos bons vão te ajudar muito, mas não vão fazer nada por ti.
-Não espere pelo momento perfeito para agir.
-Não fique devendo pro traficante
submitted by ihattori to desabafos [link] [comments]


2018.04.15 03:33 rodrigorichter Hábitos para você acordar cedo para a aula(que funcionam de verdade)

Esse post foi escrito originalmente para o Medium
Assim como a maioria dos adolescentes, eu odiava acordar cedo para ir para a aula no colégio. Mesmo depois de entrar na faculdade, acordar cedo era tipo se torturar para nada.
Eu acordava o mais tarde possível para não se atrasar, arrumava minha mochila com somente 1 caneta e 1 caderno, e ia para o ônibus.
“Dessa vez eu vou prestar atenção na aula!” e então depois de 10 minutos, eu estava no décimo terceiro sono.. e olhando para os lados, eu vi que isso acontecia com ao menos 50% dos meus colegas.
As coisas nunca melhoravam. Talvez eu simplesmente não era uma morning person.
O que eu não percebia naquela época é que existem hábitos fundamentais que influenciam completamente o seu sono e sua disposição para o dia. Aos poucos, por acidente, fui aprendendo e aplicando esses hábitos, e um dia eu pensei:
“WOW”.
De repente eu não tinha mais dificuldade para acordar cedo. De repente eu estava acordando antes do despertador, como mágica.
Aqui estão os exatos hábitos e comportamentos que realmente fazem a diferença se você quer dormir como um bebê e acordar cedo com facilidade:
1 . Diminua sua exposição à luz azul(especialmente à noite)
Seres humanos foram programados pela evolução para muitas coisas, mas uma delas com certeza não é ficar sentado na frente do computador imóvel por horas exposto à luz artificial.
Se além disso, você usar o celular, ou computador antes de dormir, será pior ainda. A luz das telas, e especialmente do espectro azul, vai perturbar a percepção do corpo do dia e noite. Isso pode soar como uma dica boba, mas realmente importa. Múltiplos estudos mostraram resultados confirmando isso.
Um artigo concluiu que “Screen-time is associated with poor sleep” (Tempo exposto à telas está associado com sono ruim).
Algo que foi extremamente útil para mim é usar apps feitos especialmente para reduzir a emissão de luzes do espectro azul durante a noite e mitigar esses efeitos, como Redshift, f.lux e Twilight. Quando tenho uma prova, uma entrevista ou algo importante no próximo dia, eu desligo o computador às 21h e vou fazer outra coisa.
2. Aumente sua exposição à luz do sol
Ok, os humanos não precisam do sol para fazer fotossíntese, mas ele é extremamente importante para a regulação do corpo para o ciclo do dia-noite. Se a gente não é exposto o suficiente à luz natural, o corpo sofre com isso, e o nosso sono também. Isso está associado à produção de vitamina D pelo corpo quando exposto ao sol.
Quando você fazer o seu corpo perceber mais facilmente quando é dia e quando é noite, o resultado vai te surpreender.
3. Exercitar regularmente
Não quero entrar em detalhes sobre os benefícios da prática de exercícios físicos, porque isso é um assunto coberto até a morte em todos os cantos da internet. Mas basicamente, exercitar o corpo vai trazer um enorme benefício para sua facilidade de dormir e acordar cedo. Seja Taekwondo, marcha olímpica, corrida, academia, ou até.. arremesso de machado(?), você vai se sentir com mais sono à noite e relaxado.
Você vai se acostumar a fazer tarefas físicas mais intensas, e então acordar cedo e sair da cama vai parecer uma tarefa muito mais fácil em comparação. Vai lá e faz.
4. Comer proteína e gordura logo quando acordar
Se os gringos americanos erraram feio na cultura de comer um hambúrguer no almoço, eles acertaram no café da manhã. Ovos & bacon são gostosos e surpresamente são bons para a saúde(em moderação).
Pessoas como Tim Ferris e Jordan Peterson recomendam comer em média 30g de proteína em até 30 minutos após acordar. A ideia é que comer primeiro a proteína vai diminuir a sua vontade de comer carboidratos, e vai dar uma dose muito necessária de proteína.
A maioria das pessoas não consome o minímo recomendado de proteína que o corpo precisa durante o dia, e a proteína pode ser transformada pelo corpo nos outros dois tipos de macronutrientes(gorduras e carboidratos), enquanto o oposto não acontece.
Onde conseguir 30g de proteína no café?
5. Evite cafeína por 6 horas antes de dormir
Não se preocupe, porque não vou dizer que café é o inimigo da produtividade e você vai morrer se tomar, como muitos artigos tentam te convencer, de uma maneira sensacionalista.
Eu tomo café quase todos dias, mas tomo muito cuidado para não tomar depois de certo horario, para mim às 18h, porque a cafeína não atrapalha o sono somente se você tomar logo antes de ir para cama, mas em até 6 horas antes de dormir. É o que conclui um artigo publicado em 2013.
Concluindo..
O corpo humano é como uma máquina: se a gente fazer a manutenção correta, vai durar por muitos anos e funcionar muito bem. Mas se ele for ignorado, problemas vão surgir rapidamente.
Não é só motivação o necessário para acordar cedo. Você precisa tomar as ações certas e praticar os hábitos ditos acima para conseguir dormir como um bebê.. e acordar cedo para o próximo dia.
O que você tá fazendo aqui ainda? Desliga essa tela! :-)
Esse post foi escrito originalmente para o Medium
submitted by rodrigorichter to brasil [link] [comments]


2017.11.29 20:20 tombombadil_uk Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois / Parte 3

Galera, finalmente postando a última parte da saga. Depois de pensar para caralho, resolvi falar com ela pelo Facebook e marcamos de nos encontrar num café pertinho da praça onde nos esbarramos. Para quem não conhece a história desde o começo:
Parte 1 - TL/DR: sou casado, reencontrei uma garota por quem eu era apaixonado há 12 anos e só nesse reencontro eu percebi como eu fui um imbecil com ela. Em resumo, nós éramos grandes amigos, eu fiquei com medo de me declarar, meti o pé do curso de inglês que fazíamos sem dar nenhuma explicação e desapareci completamente da vida dela.
Parte 2 - TL/DR: comecei a me perguntar se aquela garota que eu reencontrei realmente era ela, já que ela parecia tão mais velha. Depois de dezenas de tentativas, achei ela no Facebook e sim, realmente era ela. Descobri que um amigo meu já tinha saído com uma prima dela há muito tempo e soube que ela teve uma vida bem escrota, foi abandonada por um marido meio babaca e agora basicamente vivia só pelo filho na casa dos pais.
Parte 3 - Taí. Nos reencontramos. Foi uma experiência que eu não sei classificar. Foi feliz, foi triste. Foi amargo, foi doce. Foi impressionante. A gente chorou um pouco junto. Escrevi um pouco ontem à noite e terminei hoje de manhã.
Só queria agradecer a todos os conselhos e dicas que recebi aqui. Reencontrar alguém do passado é uma coisa que mexe muito com a gente, faz com que nosso coração se sinta naquela época novamente. Essas quase três semanas foram muito estranhas. Foi quase uma viagem no tempo por coisas que eu achava já ter esquecido completamente. Infelizmente não posso dividir muito disso com amigos próximos, então fica aqui o desabafo.
Esse último ficou mais longo do que eu esperava. Honestamente, a gente conversou tanto que acho que resumi até demais. Como da primeira vez, fiz em formato de conto. Novamente, obrigado a todo mundo que deu um help nessa história, que finalmente se fechou.
Era um café bonito. Novo da região, era um daqueles negócios em que você vê o coração de um sonho do dono. As mesas rústicas de madeira, as lâmpadas suspensas que desciam do teto em fios de prata, como teias de aranha tecidas por vagalumes. O quadro negro cuidadosamente preenchido com os preços e até desenhos estilizados de alguns pratos. No fundo, um jazz instrumental marcava presença de forma tênue. Também era um daqueles negócios que você sabe que não vai durar muito. Que você bate o olho e pensa: “com essa crise, é melhor eu dar um pulo lá antes que feche”.
Eu presto atenção a cada detalhe ao meu redor. À roupa preta das atendentes, ao supermercado do outro lado da rua que vejo pela vitrine. Aos clientes que entram e saem de uma loja das Casas Pedro. Eu não quero esquecer de absolutamente nada. Era um ritual meu que fiz pela primeira vez aos 14 anos. Sempre tive boa memória, mas naquela época eu me esforcei para colocá-la inteiramente em ação. Era um verão e eu estava prestes a reencontrar uma prima que, anos atrás, fora minha primeira paixão. Ela nos visitava de anos em anos e, três anos após trocarmos beijos juvenis debaixo do cobertor, ela havia acabado de chegar à casa dos meus avós, onde se hospedaria.
Naquela noite, eu não consegui dormir. Por volta das 4h da manhã, peguei meu cachorro e caminhei 15 minutos em meio à madrugada até a casa da minha avó. Não, não fui fazer nenhuma surpresa matinal ou pular a janela em segredo. Eu apenas fiquei do outro lado da rua e observei tudo ao meu redor. “Eu vou lembrar desse reencontro para o resto da minha vida”, pensei, do alto dos meus 14 anos. “Eu quero lembrar de cada detalhe”.
E até hoje eu lembro. Da rua cujo chão estava sendo asfaltado, mas onde metade da pista ainda exibia os bons e velhos paralelepípedos. Das plantas da minha avó balançando ao vento, o som singelo dos sinos que ela mantinha na varanda e davam àquilo tudo um clima quase de sonho. Do meu cachorro, fiel companheiro que viria a morrer dois anos depois, sentado ao meu lado com metade da língua para fora. Do frescor da madrugada que precedia o calor inclemente das manhãs do verão carioca.
Mas não é dessa memória - e nem dessa paixão - que eu falo no momento. Eu falo dela. Dela, que eu reencontrei depois de tanto tempo. Que eu julgava já ter esquecido. Que, apenas mais de dez anos depois, eu percebi que tinha sido um babaca ao desaparecer sem qualquer despedida. Mesmo que ela jamais tivesse segundas intenções comigo, mesmo que fosse apenas uma boa amiga, eu havia errado. E aquela era o dia de colocar aquilo, e talvez mais, a limpo.
Foram três semanas de tortura comigo mesmo. Desde que achara seu perfil no Facebook e ouvira de um amigo em comum notícias de uma vida triste, seu rosto não me saía da cabeça. Ao menos uma vez por dia, eu pagava uma visita ao seu perfil e mirava aqueles olhos. As fotos, quase todas ao lado da mãe e do filho pequeno, tinham um sorriso fugaz encimado por olhos dúbios, tristes. Eles lembravam-me de mim mesmo. “Você tem um olhar de filhote de cachorro triste, por isso consegue tudo que quer”. “Você parece feliz, mas sempre que para de falar por um tempo, parece ter uns olhos tão tristes”. “Essa cara de pobre-coitado-menino-sofredor é foda de resistir, dá vontade de levar para casa e dar um banho”. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquilo das minhas ex-namoradas e ficantes da faculdade. Os dela não eram muito diferentes. Quando ela finalmente apareceu, com sete minutos de atraso, eu pude perceber.
Meu coração parou por uma fração de segundo e depois disparou, como se os sineiros de todas as catedrais que haviam dentro de mim tivessem enlouquecido. Era engraçado como algumas pessoas passavam vidas inteiras sem mudar o jeito de se vestir. Ela ainda parecia com aqueles sábados em que nós nos encontrávamos no curso de inglês: os tênis All-Star, a calça jeans clara, uma camiseta simples - de alcinha, branca e com corações negros estampados - e o cabelo com rigorosamente o mesmo corte. “Talvez por isso que foi tão fácil reconhecê-la, mesmo depois de todo esse tempo”, pensei. Ou talvez eu reconhecesse aquele rosto e aqueles olhos - antes tão vivos e alegres - em qualquer lugar. Eu jamais saberia.
Como qualquer par de amigos que não se vê há milênios, falamos de amenidades no começo. Casei, separei. Sou funcionária pública, ela dizia. O relato do meu amigo, eu descobria agora, não estava perfeitamente certo. Ela não havia se demitido do trabalho, apenas se licenciado por algum tempo. “Fui diagnosticada com depressão”, ela admite, sem muitas delongas ou o constrangimento que tanta gente tem sobre o tema. “Meu casamento estava indo muito mal e eu desabei. Mas agora tá tudo bem”. Não estava, não era necessário ser um especialista para notar aquela tristeza escondida no canto do olhar.
Falei da minha vida para ela também. Contei que a minha ex-namorada que ela conheceu não deu certo e que, naquela época de fim da adolescência e início da vida adulta, eu tinha muita vergonha de falar sobre o que eu passava. Ela praticava gaslighting comigo, tinha crises de ciúme incontroláveis, me fazia sentir um crápula por coisas que eu sequer havia feito. “Você parecia tão feliz com ela”. “Eu finjo bem”, admiti. “E eu tinha vergonha de mostrar para os outros o que passava. Homem dizendo que a mulher é abusiva? Eu não queria que ninguém soubesse”.
Após quase meia hora de amenidades, eu exponho o elefante na sala de estar. Na verdade, quem começa é ela. Quando a adicionei no Facebook, falei que tinha esbarrado com ela na rua e que ficara com vergonha de cumprimentá-la na hora. Mas que queria muito revê-la depois de tanto tempo, tomar um café, falar sobre a vida. “Por que você sumiu?”, ela pergunta, no meio de um daqueles silêncios que duram mais do que deveriam. Eu tremi por dentro, mas não havia como continuar escondendo.
No começo, falei o básico. Que era de família humilde, como ela bem lembrava, e que o parente que pagava meu curso havia descoberto um câncer. Poucos meses depois, eu perdi meu emprego. Tudo isso num intervalo curto, de três ou quatro meses e perto da virada do ano. “Me ligaram do curso e ofereceram um desconto. Eu era pobre, mas sempre fui orgulhoso. Naquela época, era mais ainda. Burrice minha. Se bobear, eles iam acabar me oferecendo uma bolsa”. “Eles iam”, ela responde. “O Francisco - dono do curso - era maluco por você. Você era um ótimo aluno”. Ela dá um gole no mate que pediu. Meu café esfria ao meu lado. “Mas por quê você não falou nada comigo?”, ela continua.
Eu sabia que estava num daqueles momentos em que poderia mudar radicalmente o dia. Porque eu poderia ter mentido. “Eu não falei porque fiquei com vergonha de ter perdido o emprego”. “Eu não falei porque eu estava muito triste: parente próximo com câncer, desempregado, meu relacionamento com uma pessoa abusiva”. Eram mentiras com um pouco de verdade, mas não revelavam o grande problema. Naquele fim de tarde, eu escolhi não mentir. Nem me esconder. E eu já tinha ensaiado essas palavras dezenas de vezes nas últimas semanas.
“Olha, eu não sei se dava para reparar na época ou não. Não sei era muito óbvio, sinceramente. Mas eu era completamente apaixonado por você naquele tempo. Eu passava a semana inteira pensando no dia em que a gente ia se encontrar, trocar uma ideia no curso, caminhar junto até a sua casa. E eu tinha uma vergonha absurda disso. Eu tinha namorada, você tinha namorado e estava para se casar. Então eu achava errado expor aquilo, ser claro. E eu achava que você não gostava de mim. Eu tinha auto-estima muito baixa e esse relacionamento com essa ex-namorada abusiva só piorou as coisas. Eu me sentia um lixo, então achava que você não ia ligar se eu sumisse. Que ninguém ia ligar se eu sumisse. E foi o que eu fiz. Mas, se você quer uma versão curta da resposta, é essa: eu era completamente apaixonado por você naquela época e quis sumir, sair correndo”.
Enquanto eu falava aquilo tudo, a boca dela se abriu em alguns momentos. Às vezes parecia surpresa, às vezes parecia que ela tentaria falar alguma coisa que se perdia no caminho. Eu fazia esforço para olhá-la nos olhos, mas era difícil. Mesmo depois de todos esses anos. Tentei dar a entender com o tom de cada palavra que aquilo era uma coisa do passado, que não me incomodava mais, que agora eu queria apenas revê-la e saber como andava a vida.
O desabafo foi seguido de um silêncio que tornava-se mais pesado a cada segundo. Havia alguma coisa fervendo dentro dela, dava para ver. Foi aí que os olhos dela brilharam mais do deveriam, lacrimejando. Quando vejo aquilo, sinto que o mesmo vai acontecer comigo, mas me seguro. Ela vira o rosto e olha para além da vitrine, onde um ponto de ônibus está lotado com os clientes do supermercado e estudantes recém-saídos de suas escolas, o trânsito lento e infernal. A acústica é tão boa no bar que o caos de fim de tarde do outro lado do vidro parece uma televisão ligada no mudo. Quando ela me olha de volta, vejo que ela não faz qualquer esforço para esconder os olhos marejados.
“E você nunca me contou nada? Nem pensou em me contar?”.
Eu não sei quantos de vocês já ficaram sem notícias de um parente ou de alguém que você ama por muitos anos. Aconteceu comigo uma vez, com uma tia que desapareceu por quase 10 anos no exterior e reapareceu após ser mantida em cárcere privado por um namorado obsessivo. A sensação é estranha. É como descobrir que um livro que você tinha dado como encerrado tinha uma continuação secreta. As memórias de hoje se misturavam com as de 12 anos atrás, da última vez que li esse livro. Ela começou a contar tudo.
Ela, como eu já disse antes, era o meu ideal de felicidade. Casara cedo, tivera filho cedo, empregara-se no serviço público cedo. Era tudo com o que eu sonhava. Eu sempre quis constituir uma família, ter uma vida simples, ter um filho cedo para poder aproveitá-lo ao máximo. Mas a falta de dinheiro e a busca por uma parceira ideal sempre ficaram no caminho, assim como a carreira. O problema é que ela tinha uma vida muito diferente do que eu imaginava, muito mais parecida com a minha à época.
Acho que já deixei claro o quanto eu era apaixonado por ela no passado. Ela não era bonita nem feia, tinha o tipo de rosto que se perde na multidão sem ser notado. Filha de pai negro e mãe branca, era morena e tinha o cabelo liso levemente ondulado, quase até a cintura. Quando éramos adolescentes, ninguém a elegeria a mais bela da turma, mas dificilmente negariam que tinha seu charme. Eu a achava linda.
Mas ela, como eu, era o tipo de pessoa que tinha a auto-estima no fundo do poço. Como eu, também cresceu em um lar bem humilde. Também colecionou desilusões amorosas. E, como todo mundo já sabe, isso te transforma em um alvo perfeito para relacionamentos abusivos. O namorado dela, assim como a minha namorada à época, era muito bonito e manipulador. E ela achava que ele era a única pessoa que gostava dela, o único que lhe daria atenção. E isso fez com que, por anos, ela suportasse tudo que aconteceu entre eles. Traições, brigas, mentiras, chantagens, ameaças de abandono, ciúmes doentios. A história deles dois era tão parecida com a minha história com minha primeira namorada que eu fiquei assustado. Só que, diferente de nós, eles casaram. Eles colocaram um filho no mundo.
Ele só piorou com o nascimento da criança. Ele não era mau com o filho, ela dizia. Era um pai carinhoso, inclusive. Mas o pouco amor e bondade que ele tinha por ela transferiu-se todo para a criança. Vivia para o trabalho, para o filho e para os amigos.
“A gente chegou a ficar sem se falar por meses”.
“Morando na mesma casa e sem se falar?”.
“Sim. Nem bom dia. Nada. Eu me sentia um fantasma”.
Na contramão dele, ela dobrava-se para dentro de si própria. Abandonou a faculdade para cuidar do filho enquanto o marido formou-se com seu apoio fiel. Vivia para o filho e tinha seus problemas conjugais menosprezados pela família. “É coisa de garoto, ele vai melhorar”. “Homem quando acaba de ter filho é sempre assim”. “Vai passar”. Mas não passou, só piorou. As traições recorrentes evoluíram para uma equação desequilibrada de álcool e uma amante fixa no trabalho que ele sequer fazia questão de esconder. Ele anunciou que ia deixá-la, convenceu-a de que era um bom negócio vender o apartamento que eles haviam comprado. Racharam o dinheiro e ele foi viver a vida. Ela voltou a morar com a mãe, agora viúva.
O filho, nitidamente a coisa mais importante daquela mulher, tornou-se a única razão para viver. A pensão que a mãe recebia era baixa, o salário dela também não era bom. A pensão que o marido dava ajudava a manter uma vida extremamente funcional e sem luxos. As roupas eram das lojas mais baratas. Viagens não existiam. O único gasto relativamente alto era com uma escola particular de qualidade para o filho. O resto era sempre no básico.
Contei para ela sobre o meu sonho de casar cedo, de ter uma vida tranquila e estável. Falei que eu admirava muito a vida que ela escolheu no começo, que era a vida que eu queria ter vivido. A grama realmente é mais verde no jardim do vizinho, ao que parece.
“Mas a sua vida parecia tão tranquila, tão perfeita”.
“A minha?”.
“A sua namorada naquela época era uma menina tão bonita, eu lembro dela. Loira, bonita de corpo. Até lembro que ela fazia medicina e ainda era dançarina. Eu achava ela linda, perfeita. E você… você era sempre tão fofinho. Carinhoso e atencioso com todo mundo. Inteligente pra caralho, nem estudava e tinha as notas mais altas em tudo. Todo mundo gostava de você, todo mundo queria ser seu amigo e você nem se esforçava para isso”.
“Eu não lembro disso…”.
“Porque você não se achava bom. Você tinha 16, 17 anos e sentava para conversar de igual para igual sobre cinema e livro com uns professores de 40 e poucos anos. Você parecia fluente conversando com os professores em inglês e espanhol enquanto a gente tentava chegar perto disso. Passou no vestibular de primeira. Você não percebia, mas você era o queridinho de todo mundo. Você não era o garoto malhado bonitão, você era o garoto charmosinho e inteligente que todo mundo gostava. Eu gostava de você também. Gostava mesmo, de verdade. Eu tinha uma paixãozinha por você. Mas eu achava que eu não tinha a menor chance. Eu achava que eu merecia o meu namorado. Que eu era feia, ruim. Que ele estava certo em me falar aquelas coisas”.
“Eu era completamente apaixonado por você”, eu respondo. “Eu pensava em você todo dia”.
Engraçado como as pessoas se veem de maneira tão diferente. Eu me definia de três formas quando a conheci: eu sou gordo, eu sou feio, eu moro num dos bairros mais pobres e violentos da cidade. No dia seguinte, de manhã, eu olharia minhas fotos de 12, 14 anos atrás e me surpreenderia com quem eu via ali. Eu era bonito, só um pouco acima do peso. Com 16 anos, eu já era o barbado da turma antes de barba ser coisa hipster. Na foto do colégio, uma das últimas do terceiro ano, eu parecia tão dono de mim, tão no controle. Eu tinha aquela cara de inteligente e rebelde. Por dentro, eu era completamente diferente. Inseguro, assustado, sem auto-estima alguma e com uma namorada abusiva.
São sete e meia e a noite já começa a cair no horário de verão. Educadamente, uma das atendentes nos indica que a galeria onde o café funciona vai ser fechada em breve. Eu pago a conta e nós ficamos meio perdidos, sem saber o que fazer. Ela ainda tem os olhos inchados, eu também. Os funcionários da loja nos olham de forma surpreendentemente carinhosa, não sei o quanto eles escutaram do desabafo.
Saímos em silêncio do café, ela atendeu a uma ligação da mãe. Minha esposa estava fora do estado e só voltaria dali a alguns dias, então eu estava bem relaxado em relação às horas.
“Não sei se você precisa voltar para a casa por causa do Hugo, mas tem um bar aqui perto que é bem vazio a essa hora. A gente pode sentar pra conversar”, eu digo.
“A gente tem mais coisa para conversar?”. Ela pergunta sorrindo, não vejo nenhum traço de mágoa no seu rosto.
“Claro que tem. Doze anos não se resolvem em duas horas”.
Fomos para um bar pequeno ali perto, um que eu costumava frequentar nos tempos de faculdade. Nos tempos em que eu pensava nela e não me achava capaz de tê-la. Ele pouco havia mudado de 12 anos para cá: a mesma atmosfera que fazia dele aconchegante e levemente depressivo ao mesmo tempo. Era um bar das antigas, com azulejos portugueses azuis e poucos frequentadores. O atendimento era excelente e o preço razoável para a região, mas aquela estética de 40 anos atrás parecia espantar os frequentadores mais jovens. Os poucos que iam lá, no entanto, eram fiéis. Como eu fui no passado.
Nos sentamos no fundo do bar vazio em plena terça-feira e desnudamos nossas vidas um para o outro. “Eu quero saber quem você é”, eu comecei. “A gente falava sobre um monte de coisa, mas eu não sei nada sobre você. Sobre sua família. Sobre sua infância, quem você é. E você não sabe nada sobre mim”. Ela riu. “Você é maluco”. “Não, só quero te conhecer melhor. Compensar por ter sido um babaca há doze anos”.
A conversa foi agridoce. O que mais me assustava era como tínhamos origens semelhantes, desde a família até a criação. Os dois criados no subúrbio do Rio de Janeiro, os dois de famílias humildes que, por conta da pobreza e da necessidade de contar uns com os outros, permaneciam unidas. Primos de terceiro ou quarto grau criados próximos, filhos que casavam e formavam suas famílias nas casas dos pais. Assim como a minha família, a dela investiu tudo que tinha para que ela estudasse em um colégio particular até que eventualmente ela passou para uma escola pública de elite.
Nossas duas famílias tinham essa estranha tradição carioca que mistura catolicismo, umbanda e espiritismo, um sincretismo religioso que eu, como ateu, tenho dificuldade em entender - mesmo tendo crescido nesse meio. Assim como eu, achava-se feia, indesejada na adolescência. Isso fez com que rapidamente trocasse o mundo cor de rosa pelo rock e pelos livros. No meu caso, eu acrescentaria videogames e RPG, mas o resto não mudava muito.
“Na minha escola, tinha muita patricinha, muito playboy. Eu não aguentava eles. E eles sabiam que eu era pobre, então não se misturavam muito comigo”. Contei a minha versão para ela. “Eu gostava de ler, RPG e jogar videogame. Mas eu era muito pobre, fodido mesmo. E isso tudo era coisa de gente com grana na época, né? Então eu acabei ficando amigo dos nerds na época por conta dos gostos comuns. Eu tive sorte, demoraram a perceber que eu era pobre. Eu tenho toda a pinta de gente com grana, essa cara de europeu que engana. Quando perceberam que eu era duro, foi só no segundo grau. Ali eu já era um pouco mais cascudo, tinha bons amigos”. Ela não.
Era tudo tão igual que, em dado momento, eu parei de falar que havia sido igualzinho comigo. Eu esperava ela terminar a parte dela. Falava a minha. E intercalávamos nossas histórias, os dois surpresos com as semelhanças. Provavelmente a grande diferença era a vida dela após ter o filho e abandonar a faculdade. Ela trabalhava em uma repartição pública onde tinha 20 anos a menos do que a segunda funcionária mais nova, se afastou dos amigos. Era estranho conversar com ela. Não usava redes sociais praticamente, apenas para trocar mensagens com parentes distantes e mostrar fotos do filho para eles. Não via séries, não tinha Netflix - só novelas. Não conhecia bandas novas, não era muito de ir ao cinema. Era uma sensação estranha, mas parecia que boa parte da vida dela tinha parado em 2006 ou 2005. Os hábitos dela e poucos hobbies pareciam os de uma pessoa de 50 e poucos anos.
Me doeu imaginar o que poderia ter sido, o que poderíamos ter feito juntos, como poderíamos ter sido bons um para o outro. Pensei na minha esposa, que tem um perfil familiar radicalmente diferente do meu. Ela vem de uma família de classe alta, só com engenheiros e funcionários públicos de elite. O mundo dela era muito diferente do meu, tão diferente que às vezes me assustava. Famílias que não se falavam e que, mesmo endinheiradas, brigavam por herança e cortavam laços de vida por conta de bens que eles não precisavam. Todos católicos ou evangélicos, sem exceção. No máximo um ou outro ateu escondido no armário, como eu.
Essa diferença nos causava estranhezas, pontos de atrito que me surpreendiam. Quando eu elogiava a decoração de uma festa, ela falava do preço e da empresa que a produziu. Ela sentia uma obrigação social em aparecer em eventos familiares ou do círculo social deles, de ser e parecer uma boa esposa. Eu só queria estar onde eu estava afim e quando eu estivesse afim, nunca vi a família como uma obrigação social. Eles discutiam herança entre irmãos com os pais bem vivos, nós nos preocupávamos em fazer companhia à minha mãe quando meu pai morreu. Já era meio subentendido que abriríamos mão de qualquer coisa e deixaríamos tudo para minha mãe, tendo direito ou não.
Havia uma preocupação com patrimônio, normais sociais e aparências que, por muitas vezes, me assustavam. Muitas vezes ela parecia desgastada ou enojada com isso também, mas fazia porque alguém na família tinha que fazer, porque era tradição, porque sempre foi assim. Eu assistia àquilo atônito, impressionado como uma família tão numerosa quanto a minha - com literalmente dezenas de primos e tios até de terceiro grau que moravam em um mesmo bairro - era tão mais simples e unida do que uma dúzia de endinheirados que pareciam brigar por coisas fúteis.
Ela, que estava ali do meu lado, não. Tudo que ela me contava soava como uma cópia fiel da minha família, apenas em escala ligeiramente menor. Pensei em como as coisas seriam simples ao lado dela, despreocupadas, tranqulas. Que eu não passaria a vida sendo julgado pela família da minha companheira como o ex-pobre com pinta de hipster que conseguiu ganhar algum dinheiro, mas não tem muita classe nem é muito cristão, como nos últimos anos.
As palavras que saíram da boca dela depois de uns dois ou três copos de cerveja poderiam muito bem ter sido lidas do meu pensamento. “Você acha que a gente teria sido um bom casal? Que a gente ia se dar bem?”.
“Não tem como saber”, eu respondi. “Mas a gente pode imaginar”. E a gente começou a brincadeira mais dolorosa da noite, imaginando como seria se tivéssemos ficado juntos 12 anos atrás.
“Eu jogava videogame para caralho, você ia se irritar. E eu ia te pentelhar para jogar comigo”, eu comecei.
“Eu gostava de videogame, só não jogava muito. Eu ia te arrastar para show da Avril Lavigne e da Pitty, você não ia gostar”.
Eu sorri. “Eu não tenho nada contra as duas”.
“Britney e Justin Timberlake também”.
“Porra, aí você já tá forçando a barra, amor tem limite”.
Falamos sobre meus primeiros estágios, sobre como eu era maluco e fazia dois estágios e faculdade ao mesmo tempo. Saía de casa às cinco da manhã e voltava às onze da noite. Tudo para conseguir ter uma grana legal, já que na minha área os estágios eram ridiculamente baixos. Ela falava sobre a rotina de estudos para concurso, sobre como foi difícil conciliar a faculdade - que ela eventualmente abandonou por causa do filho - com o recém-conquistado emprego público. Eu falava do meu início de carreira, que foi bem melhor do que eu jamais imaginara, como subi rapidamente. Como eu achava estranho ganhar a grana que eu ganhava - que não era nada extravagante, garanto - mas meus hábitos simples faziam com que eu mal gastasse metade do salário. Ela falava da depressão que tomou conta dela ao perceber que estava num emprego extremamente burocrático e ineficaz, deixando-a incapaz de buscar outras alternativas. Falamos sobre a morte dos nossos pais, que parecem ter conspirado para falecer no mesmo ano.
Em algum momento, a cabeça dela repousou no meu ombro. Eu não soube o que fazer. Pensava apenas na minha esposa, em jamais ter traído ela nem nenhuma outra mulher. Foi aí que eu percebi que ela chorava e, novamente, eu chorei também.
“É engraçado a gente ter saudade de algo que a gente não teve”, eu disse, lembrando de um livro que eu li há muito tempo.
“Acho que a gente seria um casal do caralho”, ela disse, com um inesperado sorriso entre as lágrimas.
“Ou talvez a gente se detestasse e desse tudo errado, a gente nunca vai saber”.
“A gente nunca vai saber”, eu repeti, mentalmente. Como um vírus, a ideia se espalhou dentro de mim rapidamente. “Eu posso fazer uma diferença na vida dessa mulher, na vida do filho dela, na própria família dela. Eu posso ter uma vida mais tranquila ao lado dela, sem essas picuinhas de família rica. Minha esposa pode encontrar um homem muito melhor para ela. Um cara rico, cristão e que tenha a classe e pose que a família dela tanto quer. Isso pode acabar bem para todo mundo”.
Mas não podia. Lá no fundo, eu sabia que não podia. Eu tinha quase uma década de história com minha esposa. Eu tinha um casamento plenamente feliz atrapalhado por alguns poucos problemas familiares e inseguranças minhas. Tínhamos uma química ótima, gostos parecidos para livros e filmes, nos dávamos bem na cama. Valia a pena jogar aquele relacionamento tão bom e funcional - algo que me parece cada vez mais raro hoje em dia - por uma aventura fugaz? Um remorso do passado? Em um relacionamento com uma estranha que eu estava voltando a conhecer havia algumas horas?
“Você nem a conhece”, dizia a cabeça. “Ela é igual a você”, dizia o coração.
No fim das contas, eu segui a cabeça. Conversamos até quase dez da noite. Pegamos um Uber e fiz questão de deixá-la em casa, um prédio pequeno em um bairro abandonado do subúrbio. Quando o carro parou, ela se demorou um pouco do meu lado e, por impulso, eu segurei a mão dela. Ela me encarou assustada e ansiosa. Eu pensei em beijá-la, em ligar o foda-se e jogar tudo para o alto ali mesmo. Mas eu só desci do carro com ela na rua deserta e caminhamos juntos para dentro do prédio, sem saber exatamente o que a gente estava fazendo. Pedi para o motorista me esperar e disse que depois acertava uma compensação com ele.
“Eu vi o seu Facebook. Você é casado com uma mulher linda. E inteligente. Você não vai me trocar por ela. Nem eu quero acabar com o seu casamento”.
“Você acha ela linda e inteligente?”.
“Você sabe que ela é”.
E então eu desabafei. Falei que passei as últimas semanas reavaliando meu casamento e meu futuro, encarando a foto dela no Facebook de tempos em tempos. Que meu coração quase parou quando encontrei-a pela primeira vez. Que eu gostava de tudo nela. Da dedicação como mãe, da simplicidade, dessa aura de pessoa correta que ela exalava sem fazer esforço, desse espírito suburbano e familiar que ela tinha. Dos olhos dela, tão animados no passado e tão tristes agora. De como eu estava me segurando para não beijá-la naquele dia todo.
“Você é linda. Eu sei que você se acha feia, eu sei que você acha que ninguém vai se interessar por você. Mas você é uma mulher foda, e nem preciso subir para saber que você é uma mãe foda, uma filha foda. Não deixa a vida passar. Eu tenho certeza que tem mais gente que, igual a mim, já percebeu isso em você e não sabe como falar. Não faz de novo a mesma coisa que a gente fez lá atrás. Eu só queria que você soubesse disso porque eu acho que você merece ser muito mais feliz do que você é agora. E você não tem ideia de como você me deixou maluco esses dias todos. Eu sou bem casado com uma mulher linda sim, mas só de encontrar você eu tive vontade de jogar tudo para o alto”.
Foi um monólogo mais longo do que eu esperava. De novo, ela chorou. Dessa vez, eu contive as lágrimas. O abraço que partiu dela foi um dos melhores e mais tristes que já ganhei na minha vida. Havia ali uma história de amor não vivida, saudades de uma história que jamais colocamos no papel, de um mundo que nunca existiu. Ela me apertou forte e eu sentia minhas mãos tremerem.
Encostamos as laterais do rosto um do outro, aquele prenúncio de um beijo adiado. E que tive que usar todo auto-controle do mundo para manter adiado. Me afastei, olhei nos olhos dela, sorri e fui embora. Quando o Uber saiu, ela ainda estava parada na portaria e minhas mãos ainda tremiam.
Eu não sei se essa história acaba aqui ou não. Mas eu tenho quase certeza que sim. Algum dia eu vou contar tudo isso para a minha esposa, mas vou esperar esse sentimento morrer primeiro. Eu conheço ela o suficiente para saber que, em um bom momento, ela não ficaria triste com essa história. Eu até consigo imaginar a reação dela, repetindo a frase que ela me diz desde que a gente casou. “Eu te conheço. Você não vai me trair com alguma gostosona oferecida por aí. Se alguma coisa acontecer, você vai se apaixonar por alguém. Eu te conheço, você é romântico. Mas a gente se resolve”.
Quando cheguei na minha casa vazia, sentei e escrevi quase tudo isso de uma tacada só. Sem revisão, sem pensar muito. Eu acho que eu poderia escrever dezenas de páginas sobre os detalhes da conversa, mas isso aqui já está longo demais. Antes de dormir, eu vejo que tenho uma mensagem no Whatsapp.
“Foi muito bom encontrar você”.
Toda aquela tentação de falar algo mais grita dentro de mim, se debate.
“Foi bom te ver também :) “.
Por via das dúvidas, coloquei o celular em modo avião e suspirei. “Eu tô feliz ou triste?”, me perguntei. Parece uma pergunta simples e relativamente objetiva, mas eu não soube responder. Eu custei a dormir, com medo de sonhar com ela. Quando eu acordo no dia seguinte e me preparo para ir ao trabalho, a impressão que eu tenho é de que tudo foi um sonho. Vê-la, reencontrá-la, chorar, abraçá-la.
E, como quando a gente acorda de um sonho triste, eu volto a viver minha vida normal para esquecer. Hoje tem reunião com cliente. À noite, preciso pegar minha esposa no aeroporto.
submitted by tombombadil_uk to brasil [link] [comments]


2015.12.15 20:18 MarceloMosmann Obesidade não é simplesmente uma escolha

Obesidade é um dos maiores problemas de saúde no mundo, e vem normalmente acompanhada de várias outras doenças, que combinadas matam e fazem sofrer milhões de pessoas por ano.(1, 2) Essas doenças incluem diabetes, doença cardiovascular, câncer, derrame, demência, síndrome do ovário policístico, disfunção erétil, artrite e outras.
Obesidade e Força de Vontade
Quando o assunto é ganho de peso e obesidade, muitas pessoas acham que engordar é simplesmente uma questão de falta de força de vontade. Culpam a falta de força de vontade e a preguiça pela obesidade.(1, 2) Isso é ridículo! Esse tipo de pensamento só faz o obeso se sentir mal consigo mesmo, acreditar que a culpa é só dele, quando na verdade não é! O que precisamos é encontrar uma forma de resgatar a saúde do obeso, mas esse tipo de pensamento o prende nessa condição de gordura e doença. Concordo que ganhar peso (ou perder) é um resultado de nosso comportamento. Entretanto o comportamento humano é algo muito complexo. Somos guiados, muitas vezes sem nem nos darmos conta, por fatores como genética, hormônios, ambiente e questões de saúde. Comportamento alimentar é guiado, assim como comportamento sexual, por vários processos. Alguns desses fatores estão fora de nosso controle racional.
Dizer que esse comportamento e o ganho de peso que dele resulta é simplesmente uma questão de falta de força de vontade é muito simplista. Isso não leva em conta todos os outros fatores que determinam o que fazemos e o que deixamos de fazer. A força de vontade da maioria das pessoas desmorona frente à força desses sinais internos e externos. Estes são os fatores que acredito estarem causando a epidemia de ganho de peso, obesidade e doença metabólica, e eles não têm nada a ver com a vontade ou preguiça das pessoas.
Genética e Fatores Pré-Natais
A saúde é especialmente importante no início da vida, pois afeta tudo o que vem depois. Muita coisa é determinada, na verdade, ainda no útero da mãe.(1) A dieta e escolhas da mãe são de extrema importância, e podem influenciar os futuros comportamentos e composição corporal do bebê. Estudos demonstram que mulheres que ganham muito peso na gravidez têm normalmente filhos mais pesados quando estes estiverem com 3 anos de idade.(1) Da mesma forma, crianças que têm pais e avós obesos têm maior chance e serem obesas do que crianças que tenham pais e avós com peso normal.(1, 2) Os genes que recebemos dos nossos pais podem determinar se vamos ganhar muito peso ao não ao longo da vida.(1) Embora o que acontece no início da vida e fatores genéticos não sejam responsáveis exclusivos pela obesidade, contribuem no sentido de predispor as pessoas a ganharem peso. Isso não quer dizer que a obesidade seja totalmente predeterminada, pois nossos genes não são tão imutáveis como parece. Os sinais que mandamos para esses genes podem ter um enorme efeito em quais genes se sobrepõe aos outros. Esses sinais são as nossas escolhas de estilo de vida e dieta.
Nascimento e Hábitos da Infância
Não se sabe a razão, mas crianças nascidas de cesariana têm maior propensão a serem obesas.(1) Isso também se aplica a bebês alimentados com fórmula, que tendem a ser mais pesados do que aqueles amamentados pela mãe.(1) A razão pode estar na formação inicial da colônia de bactérias residentes no aparelho digestivo, o que pode afetar o modo como nosso corpo reserva gordura.(1, 2) Criar hábitos alimentares saudáveis logo nos primeiros anos de vida pode ser a maior forma de prevenir a obesidade e doenças que a acompanham.(1, 2) Crianças que desenvolvem gosto por comidas saudáveis ao invés de comida processada têm maior chance de manter um peso normal ao longo da vida. Quase metade das crianças obesas continuará obesa na adolescência, e 4 em cada 5 adolescentes obesos serão adultos obesos.(1)
Comidas Processadas "Superpalatáveis"
Comidas processadas hoje são pouco mais do que ingredientes refinados misturados a uma porção de produtos químicos. E não são apenas comidas, mas bebidas também, como refrigerantes e muitos tipos de sucos. Esses produtos são criados para serem baratos, durar bastante na prateleira e ter um gosto tão incrível, tão saboroso, que simplesmente não conseguimos parar de comer.(1) Ao fazer as comidas "superpalatáveis" ou "supersaborosas" os fabricantes garantem que comeremos muito, que compraremos mais para comer tudo e compraremos novamente.
Vício em Comida
Essa comida altamente processada, projetada para ser "supersaborosa", causa uma estimulação poderosa do centro de recompensa de nosso cérebro.(1) Sabe o que mais tem o mesmo efeito em nosso cérebro? Drogas como álcool, cocaína e nicotina. A verdade é que algumas pessoas podem ficar totalmente viciadas nessas comidas. As pessoas acabam perdendo o controle sobre seus hábitos alimentares, assim como um alcoólatra perde o controle sobre o uso do álcool.(1) Isso acontece com muito maior frequência do que você pode imaginar. Você com certeza conhece alguém, por exemplo, que toma aquele famoso refrigerante de Cola várias vezes ao dia. É bem sabido e comprovado que esse refrigerante tem alto potencial viciante. Vício é um assunto complexo com base biológica que pode ser bem difícil de superar. Quem se torna viciado em algo perde sua liberdade de escolha. A bioquímica do cérebro toma conta e começa a fazer escolhas que normalmente não são boas para o viciado.(1) Entre os obesos, 1 em cada 4 pessoas pode ser viciada em comida.
Disponibilidade de Comida
Houve no mundo, nas últimas décadas, um aumento gigantesco na disponibilidade de comida, especialmente comida processada. Postos de gasolina e qualquer lojinha agora oferecem produtos alimentares tentadores, verdadeiras bombas de açúcar, químicos e gorduras, de forma que comer por impulso se tornou extremamente fácil. Outro problema grave é que comida processada é normalmente mais barata do que comida de verdade. Algumas pessoas, especialmente em regiões pobres, nem mesmo têm acesso a comida de verdade. Os mercadinhos dessas áreas vendem refrigerantes, pão de forma branco, doces, margarina, comidas altamente processadas que duram na prateleira. Como isso pode ser uma questão de escolha se na verdade as pessoas não têm escolha?
Educação alimentar errada
Apesar da importância de uma nutrição correta, crianças e adultos geralmente não são ensinados como comer corretamente. Ensinar às crianças quais são os alimentos corretos, a importância de uma dieta saudável e nutrição apropriada, as ajuda a fazer melhores escolhas mais adiante na vida. Essa é a base dos hábitos alimentares que levarão para a vida adulta.(1, 2)
Marketing Agressivo (direcionado especialmente às crianças)
A indústria de alimentos processados é muito agressiva com seu marketing.(1) Suas táticas podem ser antiéticas e eles constantemente anunciam produtos nada saudáveis como se nos fizessem bem.(1, 2, 3) Muito desse marketing é direcionado diretamente às crianças, que estão se tornando obesas, diabéticas e viciadas em produtos que nem deveriam ser chamados de comida. Isso tudo está acontecendo antes mesmo que essas crianças tenham idade suficiente para tomar decisões conscientes sobre sua saúde.
Desinformação
Em todo o mundo as pessoas estão sendo informadas de modo errado ou falso sobre saúde e nutrição.(1, 2) A principal razão para isso é que as grandes companhias produtoras de alimentos patrocinam os cientistas e as organizações de saúde que dão suporte às declarações e ideias mais interessantes do ponto de vista financeiro. O único intuito é nos influenciar com suas pesquisas e recomendações.(1, 2, 3) Até a informação oficial promovida pelo governo parece ser planejada de modo a proteger interesses de empresas às custas da saúde da população. Não vou nem entrar em detalhes sobre o que se diz por aí sobre bacon, banana, leite, sal… Mas adianto que temos sido mal informados tem muito tempo, e o que acreditamos ser verdade não passa disso, uma crença. Uma crença sem base científica.(1, 2, 3) Como então podemos tomar melhores decisões se as informações a que somos expostos estão aí para nos enganar? Felizmente isso está começando a mudar.(1, 2)
Sono
Desde quando é motivo de orgulho dormir pouco? Pessoas que dormem nove horas por dia são chamadas de preguiçosas, enquanto aquelas que em cinco horas já pularam da cama são consideradas bons exemplos. Dormir mal é ligado a doenças cardíacas, diabete e depressão, além de ser um enorme fator de risco para obesidade. Isso mesmo, dormir pouco ou mal engorda!(1, 2, 3, 4) Além disso, a falta de uma boa noite de sono pode nos fazer ter mais fome. Também nos deixa cansados e com pouca motivação para comer direito e fazer exercício.(1) Um estudo revelou que homens jovens mantidos em regime de privação de sono por apenas uma semana desenvolvem resistência à insulina e gastam menos energia quando em repouso.(1) Outra pesquisa sugere que perder apenas 30 minutos de sono por dia pode apresentar consequências a longo prazo para o peso e metabolismo corporais.(1) Durma pouco por apenas 3 noites, umas 4 horas, e o nível de gordura no sangue permanecerá elevado, ao invés de acontecer uma redução gradual durante o sono. Esse nível aumentado reduz a sensibilidade à insulina e leva, com o tempo, à resistência.(1, 2, 3) A privação constante do sono, por problemas respiratórios ou outras causas, pode dobrar o risco de crianças se tornarem adolescentes obesos. Uma noite apenas de privação de sono tem pior efeito na redução da sensibilidade à insulina que uma dieta de "junk food" durante 6 meses. É isso mesmo, não dormir uma noite diminui mais a sensibilidade à insulina do que comer porcarias por meio ano!(1) Estamos dormindo muito menos do que dormíamos no passado, e o problema não para por aí. A qualidade do nosso sono também vem caindo. Sabe onde está o maior problema? Está no uso de luz artificial, telas de computadores, smartphones e televisores à noite. A exposição noturna à luz altera nosso ritmo circadiano, perturba o ciclo natural de dormir e despertar, que é crucial para o bom funcionamento do corpo e mente.(1, 2) Essa luz azulada que emitem acaba contribuindo para a obesidade, nos fazendo mais propensos ao ganho de peso e à síndrome metabólica, câncer e depressão.(1, 2, 3, 4) O bom sono é tão importante quanto uma boa dieta e exercício para nossa saúde, e é tão desprezado.
Poluição
Pois é, agora até respirar engorda!(1) A poluição provocada pela circulação de veículos, a queima de carvão para geração de energia, a fumaça dos cigarros e alguns compostos presentes em certos plásticos, pesticidas e solventes são as maiores fontes de preocupação, com suas partículas minúsculas e agressivas capazes de detonar inflamações generalizadas e alterar o metabolismo e a produção hormonal. No curto prazo os efeitos são mínimos, mas ao longo de vários anos esse contato com poluentes pode ser suficiente para causar doenças graves que vão além dos distúrbios respiratórios comumente associados à poluição.(1) O mecanismo exato ainda está em discussão, mas experimentos sugerem que a poluição do ar detona uma reação em cadeia no organismo. Essas partículas irritantes podem liberar no sangue uma enorme quantidade de moléculas inflamatórias, chamadas citocinas. Isso interfere na resposta à insulina e bagunça os hormônios e o processamento do apetite pelo cérebro. Tudo isso atrapalha o equilíbrio de energia do organismo, levando a uma série de problemas no metabolismo, como a diabetes e a obesidade, além de problemas cardiovasculares como a hipertensão.(1, 2) Os cientistas se preocupam especialmente com os efeitos nas crianças, e alguns chegam a considerar a hipótese de que os poluentes que uma gestante respira podem alterar o metabolismo dos bebês, tornando-os mais propensos à obesidade.(1, 2, 3) Estudos já concluíram que crianças que vivem em área com elevado tráfego rodoviário são mais gordas.(1, 2) Crianças também estão sujeitas à irritação das vias respiratórias e a quadros infecciosos. Em geral, o motivo mais comum é o crescimento exagerado das amígdalas e da adenoide, o que prejudica a oxigenação do organismo como um todo durante o sono. Como já vimos, noites mal dormidas podem levar ao ganho de peso, além de serem a origem de problemas comportamentais e de aprendizagem, como hiperatividade e agressividade. Fique atento, um dos primeiros sintomas é o ronco.(1) Os riscos podem estar dentro de casa também, pois o fumo passivo leva a um aumento de peso mais rápido em crianças e adolescentes. As soluções são conhecidas, mas difíceis de colocar em prática: diminuir a poluição atmosférica, redesenhar as ruas para que pedestres e ciclistas fiquem menos expostos diretamente às emissões, aumentar o número de purificadores de ar em casas, escolas e escritórios. Também se deve evitar o exercício ao ar livre em dias de muita poluição, ou ao menos evitar os piores horários. Não fumar, ao menos dentro de casa, ajuda muito.
Remédios e Condições de Saúde
Muitas doenças e condições de saúde necessitam de remédios para serem tratadas. Infelizmente o ganho de peso é um efeito colateral comum de muitas medicações. Estão aí incluídos os remédios para diabetes, antidepressivos e antipsicóticos.(1) Essas medicações podem aumentar o apetite, reduzir o metabolismo, fazer com que o corpo passe a armazenar mais gordura ou alterar sua capacidade de queimar gordura. Veja bem, não é uma "deficiência de força de vontade" o que é causado pelas medicações. Além disso, algumas condições de saúde podem predispor as pessoas a ganhar peso. Um exemplo é o hipotireoidismo.(1, 2, 3)
Exercício
Você não deveria fazer exercício com o objetivo de queimar calorias. As calorias queimadas durante o exercício são normalmente insignificantes, podem ser repostas facilmente ao comer um pouquinho a mais na próxima refeição. Ou você acredita mesmo que consegue fazer exercício e comer menos? Qual é a chance de que você, com fome, vá ter energia para se exercitar, por anos? Isso não é sustentável.(1) Entretanto, não me entenda mal, exercício é fundamental tanto para a saúde física quanto mental. Exercício, a longo prazo, pode ajudar a perder peso melhorando o metabolismo, aumentando a massa muscular e fazendo a gente se sentir incrível. Mas é muito importante que se faça o tipo correto de exercício. Tempo na esteira ou na bicicleta dificilmente vai dar bons resultados e quando feito demais pode até levar ao ganho de gordura. Quando uma pessoa realiza treinos mais longos, com baixa intensidade (aeróbios), além de ter uma queda do metabolismo, tende a liberar alguns hormônios que podem ser muito negativos para o objetivo de emagrecer. Isso até resulta em perda de peso, mas da pior forma possível. Veja bem, o que se está perdendo nesse caso é a massa magra, os músculos. O efeito é pequeno sobre a gordura corporal. Já os exercícios de curta duração e alta intensidade são o oposto dos aeróbios. Levam não só ao consumo energético durante a atividade física (que normalmente é menor do que em exercícios prolongados), mas têm influência também nos períodos de recuperação pelos estímulos hormonais que ocorrerão. Ocorre queima de calorias por muitas horas após o exercício, assim como ativação de enzimas ligadas à utilização da gordura corpórea como energia, além de melhora da resistência à insulina e de outros indicadores importantes de saúde.(1, 2) Musculação com cargas altas aumenta a massa magra e influencia de modo positivo nos hormônios, o que ajuda muito na perda de peso. Trabalhos com elevadas repetições, baixos níveis de esforço e baixas cargas não são um bom caminho. Treinos intervalados de alta intensidade são uma excelente maneira de entrar em forma que ainda por cima melhoram o metabolismo e aumentam os níveis de hormônio do crescimento, tão importante para uma vida saudável. Além de mais efetivos, treinos intensos têm menor duração e menor frequência semanal. Como a falta de tempo é um dos maiores motivos para o sedentarismo, esses treinos são a solução ideal para perda de gordura, além de aumentarem a chance de adesão a programas de exercícios. Pode tentar, mas você não consegue correr mais do que uma má dieta.(1, 2)
Estrogênio e Testosterona
Estrogênio é o hormônio sexual feminino, secretado pelos ovários. Umas das funções desse hormônio é influenciar uma enzima chamada lipase lipoproteica - LPL -, que por sua vez "puxa" gorduras da corrente sanguínea para dentro de qualquer célula a que esteja ligada.(1) Quando os níveis de estrogênio estão normais, a atividade da LPL é controlada e o corpo acumula pouca gordura. Mas se há pouco estrogênio há também mais LPL nas células de gordura, o que faz com que o corpo acumule gordura demais. É isso que faz engordar as mulheres que tiveram os ovários removidos ou passaram pela menopausa.(1, 2) O hormônio sexual masculino, testosterona, age da mesma forma, mas a LPL apresenta maior ação nos tecidos gordurosos da barriga. Após as menopausa a atividade da LPL na região abdominal das mulheres se equipara à dos homens e elas começam a acumular gordura ali também.(1, 2)
Poderosos "Hormônios da Fome"
Fome e alimentação descontrolada não são causados simplesmente por gula ou falta de força de vontade. A fome é controlada por hormônios muito poderosos, envolvendo áreas do cérebro responsáveis por desejos e recompensas.(1) Grande parte dos obesos tem a secreção e/ou recepção desses hormônios desreguladas, o que altera o comportamento alimentar e faz com que a vontade de comer mais e mais seja quase irresistível.(1, 2, 3) Quando comemos nosso cérebro secreta dopamina e outros químicos que nos dão prazer. Esta é a razão pela qual a maioria de nós adora comer. É um sistema que evoluiu para garantir que comêssemos o suficiente para ter toda a energia e nutrientes de que precisamos.(1, 2, 3) Pois a comida industrializada é feita de uma forma que acaba liberando muito mais desses hormônios. Assim sentimos muito mais fome e prazer do que seria normal, levando a um ciclo vicioso.
Resistência à Leptina
Leptina é um hormônio importante na regulagem do apetite e metabolismo.(1) É produzido pelas células de gordura e sua função é sinalizar ao cérebro que estamos "cheios" e devemos parar de comer. A leptina regula, assim, a quantidade de comida que ingerimos e a energia que gastamos, além de quanta gordura armazenamos.(1) Quanto mais gordura uma célula de gordura tiver, mais leptina vai produzir. Então pessoas obesas produzem grandes quantidades de leptina e deveriam se sentir satisfeitas antes, correto? Assim não comeriam tanto. Acontece que obesos tendem a ter uma condição chamada Resistência à Leptina, uma das principais causas da obesidade. Ainda que seus corpos produzam muita leptina, o cérebro não recebe essa informação de forma correta e "pensa" que está passando fome, mesmo tendo armazenada mais gordura do que precisa.(1) Isso causa mudanças fisiológicas e de comportamento, numa tentativa de armazenar a gordura que estaria em falta.(1) Aumenta a fome e o gasto de energia diminui, de modo a prevenir a desnutrição. Usar a "força de vontade" contra os sinais de fome e preguiça que se instalam é quase impossível para muitas pessoas. Alimentação exagerada e preguiça não são causas do sobrepeso, e sim consequências ou sintomas. Você não engorda porque come demais e gasta energia de menos. É o contrário: você come demais e gasta menos energia porque está engordando.
Insulina
A insulina é outro hormônio extremamente importante, que regula entre outras coisas o armazenamento e produção de energia. Seu papel principal é regular a quantidade de nutrientes circulando na corrente sanguínea. Embora regule principalmente o açúcar no sangue, também afeta a queima de proteínas e gorduras.(1) Ela faz nosso corpo guardar energia nas células de gordura e impede que as células musculares queimem gorduras da corrente sanguínea, queimando apenas açúcares. Qualquer gordura que conseguir escapar das células para o sangue acaba sendo armazenada novamente em alguma célula de gordura. Devido a várias razões, às vezes as células param de responder da forma esperada à insulina, ou seja, se tornam "resistentes" à insulina. O corpo então produz mais insulina, para que as células respondam da forma esperada, o que faz piorar essa "resistência" das células. Com o tempo o problema leva a danos no pâncreas - que produz a insulina -, altos níveis de açúcar no sangue - o que é tóxico - e diabetes tipo 2, entre várias outras doenças graves.(1, 2) Os níveis elevados de insulina no corpo fazem com que os nutrientes sejam seletivamente armazenados nas células de gordura, levando ao ganho de peso e obesidade. A Resistência à Insulina tem como principais causas a alimentação exagerada, ganho de peso, obesidade e gordura visceral - a famosa barriga de cerveja. Entretanto, pessoas magras também podem ser resistentes à insulina.(1, 2, 3) Há outras várias potenciais causas, entre elas problemas com as bactérias benignas do nosso sistema digestivo, o alto consumo de frutose, inflamações, e falta de atividade física.(1, 2, 3, 4, 5) Se você tem sobrepeso ou é obeso, especialmente se tem muita gordura na região da barriga, se tem baixo HDL - o "bom" colesterol - ou triglicerídeos acima do normal, as chances são de que você seja resistente à insulina.(1, 2)
Açúcar
Por fim, o pior componente da dieta moderna. Quando consumido em excesso, o açúcar muda a bioquímica e hormônios do corpo, contribuindo em muito para o ganho de peso e todos os males que se seguem. O açúcar adicionado aos alimentos processados - basta ler o rótulo, é de assustar como quase tudo tem adição de açúcar - é metade glicose e metade frutose. O maior problema está na frutose, que em excesso causa elevação dos níveis de insulina e resistência à insulina, pode causar resistência à leptina e não sacia da mesma maneira que a glicose. Isso acaba contribuindo para o armazenamento de energia nas células de gordura e obesidade.
Para Pensar
Não use este texto como desculpa para desistir e decidir que o seu destino é mesmo ser gordo e doente. O meu objetivo com o texto é mostrar às pessoas quais são os verdadeiros fatores responsáveis por essa epidemia de obesidade. Não é uma questão de "culpa individual", preguiça ou gula. A não ser que haja uma condição de saúde, o controle do seu peso e gordura ainda está em suas mãos. É possível emagrecer e permanecer magro. A informação para isso está cada vez mais disponível, basta estar aberto, se perguntar se o que você vem fazendo é o correto ou está levando a engordar e adoecer. Normalmente dá trabalho, não é fácil, requer algumas mudanças de estilo de vida, mas muitas pessoas têm sucesso mesmo tendo muitas coisas contra elas. Você também pode vencer este problema. Ah, ok, os obstáculos! Todos têm obstáculos. Verdade. O Obama tem, o Guga tem, a Fátima Bernardes tem. Até eu tenho obstáculos, imagina só! Só porque as pessoas são bem-sucedidas não quer dizer que não tenham suas pedras no caminho. Agora, o que essas pessoas fazem é superar. Elas superam os problemas e obstáculos. Ninguém nasce um sucesso. Ninguém é bem sucedido logo no início. Ok, ok, algumas pessoas têm uns obstáculos um pouco - ou um tanto - maiores. Mas isso é irrelevante, isso é só um teste. Família, dívidas, três empregos, quatro filhos, pé quebrado, ou mesmo dormir no chão da sala de um amigo. Ou pior, a gordura é tanta que fica difícil caminhar até a porta, você está desempregado e tem um cunhado maluco que te enche a cabeça e atrapalha a vida 24 horas por dia. Tá tudo bem, você nasceu para vencer. Isso tudo é só um teste. A pergunta importante aqui é a seguinte: você vai superar esses obstáculos e sair dessa mais forte? Ou vai ficar na mesma, seguindo o padrão de sempre, esperando lá no fundo que um dia tudo melhore mas na verdade vendo o barco afundar? É contigo determinar se esse obstáculo é algo a ser superado. Faz o seguinte, repete comigo: "Essa m**** é temporária, eu vou superar!" Eu gosto muito de uma pequena frase em Inglês, "relentless forward motion". Quer dizer Movimento à Frente Incansável. Ou seja, superação pura, sem se entregar, sem desistir. É focar em um objetivo e não parar até alcançá-lo. Não estou tentando dar uma palestra motivacional aqui. Estou só te dando a real. Se decidiu fazer algo, superar algo, não desista. Simples assim.
submitted by MarceloMosmann to brasil [link] [comments]


RESEÑA 1  LOS 7 HÁBITOS DE LOS ADOLESCENTES ALTAMENTE ... HÁBITOS DE ADOLESCENTES MEDÍOCRES X HÁBITOS DE ADOLESCENTES INCRÍVEIS Los 7 hábitos de los Adolescentes altamente efectivos. 5/5 ... Los 7 hábitos de los adolescentes altamente efectivos ... 7 Mejores Hábitos de ADOLESCENTES Que debes Hacer HÁBITOS DE HIGIENE EN ADOLESCENTES - YouTube 03_Cap. 1 Adquirir el hábito_Los 7 hábitos de los ... los 7 habitos de los adolescentes altamente efectivos ... Los 7 Hábitos de los Adolescentes Altamente Efectivos - Yimmy Suarez

10+ Melhores Ideias de habitos de higiene educação ...

  1. RESEÑA 1 LOS 7 HÁBITOS DE LOS ADOLESCENTES ALTAMENTE ...
  2. HÁBITOS DE ADOLESCENTES MEDÍOCRES X HÁBITOS DE ADOLESCENTES INCRÍVEIS
  3. Los 7 hábitos de los Adolescentes altamente efectivos. 5/5 ...
  4. Los 7 hábitos de los adolescentes altamente efectivos ...
  5. 7 Mejores Hábitos de ADOLESCENTES Que debes Hacer
  6. HÁBITOS DE HIGIENE EN ADOLESCENTES - YouTube
  7. 03_Cap. 1 Adquirir el hábito_Los 7 hábitos de los ...
  8. los 7 habitos de los adolescentes altamente efectivos ...
  9. Los 7 Hábitos de los Adolescentes Altamente Efectivos - Yimmy Suarez

Los 7 HÁBITOS de los ADOLESCENTES altamente EFECTIVOS consejos (2020). 👌 Liderazgo juvenil. Autor: Sean Covey. Libros de liderazgo. Aborda una idea del libro... Resumen del libro - Los 7 hábitos de la gente altamente efectiva por Stephen R Covey (Voz robotica) - Duration: 43:53. MIS AUDIOLIBROS - Libros de Desarrollo Personal 41,365 views 43:53 RESEÑA DE LA PRIMERA PARTE DEL LIBRO! La guía práctica para adolescentes en la era digital. ESCRÍBEME: [email protected] Redes sociales: Snapchat: isag... 5 CONSEJOS Que Todo ADOLESCENTE Debería Probar Con Su Cabello - Duration: ... 7 Hábitos Que Debes HACER YA Después De Tus 20´s - Duration: 6:17. JR Style 265,069 views. 6:17. Hábito 7. Afila tu sierra. Dedica tiempo a ti mismo. La llave que te abre un mejor futuro es la educación, una mente educada puede enfocarse, sintetizar, esc... Enjoy the videos and music you love, upload original content, and share it all with friends, family, and the world on YouTube. Ejercicio de Camtasia acerca de hábitos de higiene. Um novo tempo com devocionais, vídeos, entrevistas, respondendo perguntas, falando sobre todos os assuntos da vida de um adolescente. Bora que tem muita coisa bacana pra gente viver junto por aqui. Ser joven es tan maravilloso como desafiante. En Los 7 hábitos de los adolescentes altamente efectivos, Sean Covey aplica los principios imperecederos de los...